A importância do recreio

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Trabalhando há cerca de dois anos no projeto Treinamento de Pais, hoje resolvi escrever sobre uma das principais técnicas trabalhadas ao longo do treinamento: o recreio.

Caberia, em primeiro lugar, retomar o que é o Treinamento de Pais, um programa que orienta para uma postura educativa não coerciva, ou seja, utiliza uma postura que trabalha o equilíbrio entre afeto e disciplina, contribuindo para desenvolver na criança ajuste comportamental através do ensino voltado aos pais de Habilidades Sociais Educativas. A técnica do recreio, por sua vez, propõe que os pais reservem de quinze a vinte minutos por dia, no mínimo 4 dias por semana, para dar atenção exclusiva ao filho. A ideia é que durante este período, pai e filho possam fazer algo que a criança goste, priorizando seus interesses. Durante o recreio os pais são orientados a chamar a atenção dos filhos ou corrigi-los apenas em falhas que os exponha a riscos. Por outro lado, os elogios são sempre bem vindos, é de grande importância que o pai valorize o bom comportamento de seu filho. O que torna então o recreio um momento tão especial e produtivo?

A grande maioria dos pais inicia o treinamento queixando de problemas de disciplina com seus filhos. Boa parte dos filhos não cumpre regras e não ouve aos pais. A criança se mostra muito resistente a qualquer tipo de ordem que venha dos pais, do mesmo modo que os pais se mostram muito resistentes a qualquer tipo de mudança. É um ciclo repetitivo e desgastante. O recreio entra com o objetivo de fortalecer os laços da relação pai e filho e facilitar para que este ouça e atenda às orientações dos pais. Quando os pais dedicam uma boa atenção, comunicação facilitadora e interesse em ouvir o filho, o processo de ensinar e aprender tende a ficar mais claro, mais afetivo e mais efetivo.

A ideia é fazer com que ao menos durante estes quinze/vinte minutos pai e filho possam interagir de forma prazerosa, buscando no outro aquilo que ele oferece de melhor. Ao entender que aquele momento é um momento de diversão e bem-estar a criança tenderá a atender melhor às regras e pedidos feitos pelos pais naquele momento, como, por exemplo, obedecer às regras de um jogo. A criança que antes se mostrava muito resistente a ouvir os pais, começa a responder a seus comandos mesmo que de forma inconsciente. Obviamente há um longo caminho a se percorrer até que a criança passe a atender ordens efetivas dos pais fora do contexto do recreio. Porém, são nestas pequenas situações que a relação pai e filho se fortalece e torna possível, ao longo do tempo, que a criança seja capaz de atender melhor às regras e limites impostos pelos pais.

Cabe ressaltar também a importância do recreio para aqueles filhos que exigem de forma imoderada a atenção dos pais. A certeza de que o filho terá 20 minutos diários de atenção exclusiva de seus pais, faz com que seu grau de ansiedade diminua já facilitando de algum modo a interação pai e filho.

Não tenho como objetivo defender a técnica do recreio como garantia de uma disciplina educativa não coerciva, mas acredito que este possa ser um primeiro passo, dentro de muitos, para que os laços da relação pai e filho possam se fortalecer, favorecendo um ambiente familiar preventivo ao aparecimento de problemas comportamentais.

 por Amanda Malta
Graduanda em Psicologia pela UFMG
Aluna de iniciação científica do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento