Ansiedade matemática: você sabia que existe?


Atualmente, existe uma importância cada vez maior das áreas relacionadas a ciências, tecnologias, engenharia e matemática. Essas áreas estão cada vez mais associadas a melhores empregos e salários mais altos. Contudo, para muitas pessoas, a resolução de problemas lógicos e matemáticos traz sentimentos de tensão e insegurança.

Esses sentimentos negativos, ansietyde tensão medo ou apreensão que interferem no desempenho matemático são chamados de ansiedade matemática (AM). A AM é considerada uma “fobia específica” porque tem como principal característica o medo persistente diante de um objeto específico (no caso, a matemática) e a exposição a esse objeto provoca a resposta de ansiedade. Para ficar mais claro, a ansiedade é uma resposta diante de estímulos aversivos e pode se manifestar em três componentes: (1) cognitivo: avaliações de  situações e eventos como um risco antecipado (pensamentos do tipo “eu não vou conseguir fazer”; “eles vão rir de mim”); (2) fisiológico: ativação do sistema nervoso autônomo para respostas de luta/fuga (taquicardia, tremor, sudorese etc); (3) comportamental: preparação para fugir ou evitar aquele estímulo aversivo da presente ou de futuras situações (fazer bagunça na sala de aula para não ter que fazer a atividade proposta).

Clinicamente, percebemos que não é raro encontrarmos crianças, adolescentes e adultos com atitudes negativas em relação à matemática. Em muitos desses casos as atitudes negativas podem estar relacionadas à fobia ou ansiedade matemática, podendo, inclusive, ser atribuídas a experiências de insucessos com a aprendizagem desta matéria. Um fator de risco muito consistente para a AM é o baixo desempenho nas atividades de matemática. O baixo desempenho acaba por gerar autoavaliações negativas do indivíduo e consequentemente influencia em sua autoeficácia. Assim, as tarefas de matemáticas seriam emparelhadas ao sentimento de fracasso e isso geraria ansiedade em relação à disciplina. Um ponto importante é que este ciclo pode ter início em qualquer uma das pontas. A criança pode ter um transtorno de aprendizagem (discalculia), isso gera experiências de fracasso e causa ansiedade. Ou a criança tem um perfil mais ansioso que prejudica seu desempenho, trazendo experiências de fracasso e aumentando sua dificuldade.

Um estudo feito por Young e colaboradores com ressonância magnética funcional, com crianças de 7 a 9 anos, mostrou que a ansiedade atrapalha significativamente o desempenho nas tarefas de matemática.  A ansiedade matemática foi associada com hiperatividade em regiões amígdala direita que são importantes para o processamento de emoções negativas (medo). Além disso, a AM também mostrou atividades reduzidas no córtex parietal posterior e regiões do córtex pré-frontal dorsolateral envolvidos no raciocínio matemático. Com isso, podemos concluir que a AM atrapalha efetivamente o desempenho, uma vez que as áreas relacionadas a memória de trabalho e processamento numérico atuam com uma intensidade menor e, assim, fica bem mais difícil controlar a ansiedade e responder cálculos assertivamente.image

Recentemente, o LND montou um projeto de intervenção para ajudar essas crianças e adolescentes com ansiedade matemática. O projeto tem como objetivo quebrar o ciclo mencionado acima, atráves de técnicas para diminuir a ansiedade, aumentar a autoeficácia e melhorar as relações interpessoais entre as crianças/adolescentes. Caso você tenha lembrado de alguém enquanto lia o texto, é só ligar no ambulatório e pedir mais informações sobre o projeto!

por Danielle Cristine Borges Piuzana Barbosa
Mestranda pelo PPG em Neurociências – UFMG
Pesquisadora do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento (LND)

Referências:

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Young, C. B., Wu, S. S., & Menon, V. (2012). The neurodevelopmental basis of math anxiety. Psychological science, 23(5), 492-501.