PEDAGOGIA EVOLUCIONISTA NO CURSO DE FÉRIAS 2014

Dos dias 21 a 25 de julho de 2014 vou ministrar na FAFICH mais um curso de férias sobre neuropsicologia. O curso é intitulado “Neurociência e educação: evolução e processamento de informação” (clique aqui para saber mais). Como sempre, as aulas expositivas ocorrerão pela manhã entre 8 e 12 horas e os módulos práticos sobre testes neuropsicológicos e treinamento de pais serão desenvolvidos à tarde.

david-gearyUm dos tópicos que vou abordar no Curso de Férias de 2014, é a pedagogia evolucionista. A pedagogia evolucionista é uma perspectiva teórica proposta por David Geary, o qual é professor na University of Missouri Columbia (http://web.missouri.edu/~gearyd/). Geary é um pesquisador destacado em duas áreas: cognição matemática e psicologia evolucionista. Na área de matemática, p. ex., ele conduz diversos estudos utilizando uma “math van”, um laboratório móvel de psicologia cognitiva que visita as escolas e avalia a gurizada (http://mumathstudy.missouri.edu/van.shtml). Nos seus escritos teóricos sobre pedagogia evolucionista ele articula estas duas vertentes, a matemática e a evoluçao (Geary, 2007). A pedagogia evolucionista é especialmente relevante no contexto brasileiro, considerando o nosso histórico de fracasso escolar e de tentativas mais fracassadas ainda de formular políticas públicas para enfrenta-lo. A pedagogia evolucionista, a meu ver, permite identificar alguns fatores relacionados a este fracasso e a conceber algumas alternativas possíveis.

A pedagogia evolucionista se baseia na pressuposição de que dois tipos de habilidades cognitivas evoluíram na espécie humana: as habilidades cognitivas biologicamente primárias e as habilidades biologicamente secundárias (Geary 2007). O principal critério distintivo é o modo de aquisição. As habilidades biologicamente primárias, tais como a linguagem oral, são adquiridas de forma espontânea, não deliberada. As habilidades secundárias, por outro lado, requerem uma pedagogia e muito esforço deliberado para sua aquisição. Um exemplo de habilidade cognitiva secundária é a leitura de palavras, uma evolução cultural cuja perícia requer três anos de prática.

De um modo geral, as habilidades primárias são organizadas modularmente no cérebro, específicas de domínio, processadvanas automaticamente e independentes da inteligência geral. Em contraste, as habilidades secundárias são descontextualizadas, inespecíficas de domínio, processadas no modo controlado e fortemente associadas à inteligência geral. Uma distinção adicional diz respeito à motivação. A motivação para a aquisição das habilidades primárias é intrínseca. A aquisição de habilidades primárias é auto-reforçadora e ocorre de forma espontânea, natural. A aquisição de habilidades secundárias, por sua vez, depende de muita prática e esforço deliberado, não sendo intrinsecamente reforçadora. O reforçamento para a aquisição das habilidades secundárias é derivado, mediado cognitivamente. Para se empenhar na aquisição de habilidades secundárias o indivíduo precisa ter capacidade de abrir mão de uma recompensa menor imediata por uma recompensa maior futura (Giannetti, 2005). Isto requer memória de trabalho para representar na mente as metas futuras e funções executivas para inibir respostas prepotentes distratoras, manter o foco na tarefa e monitorar o desempenho.

A pedagogia evolucionista tem implicações revolucionárias para a educação. O fracasso escolar é um dos maiores problemas do Brasil contemporâneo. O nível educacional da sua população é o maior ativo econômico de um país. O Brasil está ficando para trás nesta corrida. Até o momento, as dificuldades de aprendizagem no Brasil têm sido abordadas a partir de uma perspectiva construtivista. O construtivismo valoriza o papel ativo da criança, procurando tornar a aprendizagem mais lúdica. Os materiais devem ser concretos e os problemas contextualizados na cultura do indivíduo. O papel do professor se reduz ao mínimo de propiciar situações-problema e materiais com os quais as crianças vão interagir até descobrir e construir as soluções. A instrução formal é colocada em segundo plano, uma vez que poderia, inclusive, ser prejudicial à aprendizagem. A aprendizagem valorizada é aquela que advém da descoberta e não da instrução.

A pedagogia evolucionista pode ajudar a entender algumas das razões pelas quais a filosofia construtivista tem fracassado na resolução dos problemas educacionais do Brasil. A missão da pedagogia é ensinar as habilidades secundárias. As habilidades primárias são adquiridas espontaneamente. A dificuldade com a aquisição das habilidades secundárias deriva do fato de que o estudo é aversivo, pois depende de esforço deliberado (Willingham, 2011). Já que a motivação não é intrínseca, o aluno precisa aprender na escola a auto-motivar-se. A entender que existe uma relação entre o seu esforço e o resultado obtido.

Trabalhar com materiais concretos e situações altamente contextualizadas é o primeiro passo e não o objetivo do processo. Por natureza, as habilidades secundárias são descontextualizadas, abstratas. A pedagogia precisa aprender o pulo do gato. Ou seja, como é que se faz para passar das habilidades primárias para as habilidades secundárias. Não adianta nada ficar ensinando para as crianças apenas as habilidades primárias, isto é, aquilo que o cérebro delas está pré-programado para aprender por conta própria, sem necessidade de qualquer intervenção. Prender-se ao contexto e aos materiais concretos é um empobrecimento curricular e não atende às emandas da sociedade contemporânea. Sem instrução formal não tem como transmitir o legado cultural exponencialmente crescente de uma geração para outra. Sem descobrir a pedra filosofal da motivação extrínseca não tem como engajar os meninos na aprendizagem de habilidades secundárias.

A psicologia cognitiva concebe a aprendizagem escolar como um processo de aquisição de perícia em diversas habilidades (Willingham, 2011). De início, a aprendizagem de uma habilidade nova requer esforço deliberado, atenção, monitorização constantes dos erros, os quais são freqüentes. O processo inicial é aversivo. É somente com a prática que o indivíduo vai automatizando o processo e adqurindo perícia. A recompensa advém da perícia adquirida. O desafio para os pedagogos é conduzir as crianças ao longo deste processo. Utilizar-se de estratégias para que elas não fiquem perdidas no meio do caminho.

A psicologia cognitiva e comportamental descobriram a pedra filosofal da motivação secundária (Bandura et al., 2008). É muito simples. Basta que o currículo seja programado de forma tal que a criança obtenha sucesso. O sucesso obtido aumenta sua auto-eficácia tornando o processo de aprendizagem recompensador. O fracasso escolar é desmotivador, mas não adianta nada simplesmente ficar promovendo as crianças de série sem que elas tenham adquirido as habilidades requeridos. Isto é tapar o sol com a peneira. Uma estratégia adicional é a atenção diferencial da professora. Que consiste em a professora sistemática e incondicionalmente concentrar sua atenção nos comportamentos adequados da criança, p. ex., estudar, ignorando os comportametnos inequados, p. ex., distrair-se. Assim, os comportamentos adequados vão sendo reforçados e os inadequados extintos.

É uma miragem achar que as crianças podem aprender sem esforço (Willingham, 2011). O legado cultural que as professoras precisam transmitir de uma geração para outra cresce de forma exponencial e avassaladora. O Mundo Digital exige a aprendizagem de fatos, conceitos e habilidades cada vez mais complexos. Muito distantes das habilidades biologicamente primárias que as crianças aprendem por conta própria. A aquisição de habilidades secundárias exige intervenções pedagógicas direcionadas, instrução formal. E o emprego de estratégias motivacionais que permitam às crianças adquirir gosto pelo estudo. Fazer de conta que não é necessário esforço para a aquisição de habilidades secundárias apenas contribui para que as crianças passem a detestar a escola. Seria mais sensato admitir que a aprendizagem é complicada sim e exige esforço. E a partir daí pensar como os alunos podem ser motivados para aprender.

Na prática o construtivismo é empregado apenas na educação infantil e nas séries iniciais. Esta é a minha experiência como pai e como clinico. Até o terceiro ou quarto anos do ensino fundamental é só farra. As crianças aprendem brincando. Adoram a escola. A partir do terceiro ou quarto ano a coisa muda drasticamente, sem que as crianças tenham sido previamente preparadas. Antes era só farra. Tudo o que a criança escrevia era fofinho, refletia suas hipóteses sobre a natureza da língua escrita e suas relações com a língua falada. De uma hora para outra a professora começa a corrigir a ortografia. E aquilo que era fofinho agora virou erro, que desconta nota. Muitos meninos se perdem nesta transição de ênfase nas habilidades primárias para a ênfase nas habilidades secundárias. Lidar com estes problemas exige que os pedagogos se libertem da sua camisa de força construtivista. Compreendendo que existe vida para além do construtivismo. Que existe todo um corpus de conhecimento amealhado pela psicologia cognitiva e comportamental, o qual é diretamente relevante para a educação.

Leituras recomendadas

Bandura, A.,Azzi, R. G., & Polydoro, S. (eds.) (2008). Teoria social cognitiva. Conceitos básicos. Porto Alegre: ARTMED.

Bernardin, P. (2012). Maquiavel pedagogo. Ou o ministério da reforma psicológica. Campinas: Ecclesia/Vide.

Geary, D. C. (2007). Educating the evolved mind: Conceptual foundations for an evolutionary educational psychology. In J. S. Carlson & J. R. Levin (Eds.), Educating the evolved mind (pp. 1-99, Vol. 2, Psychological perspectives on contemporary educational issues). Greenwich, CT: Information Age (Disponível emhttp://thesedominiquebellec.fr/A_redaction_these/Chapitre_3_Apprentissages_
complexes/Texte/Vrac%20articles/Vrac%20articles/Geary01.pdf
).

Giannetti, E. (2005). O valor do amanhã. Ensaio sobre a natureza dos juros. São Paulo: Companhia das Letras.

Haase, V. G., Ferreira, F. O., Moura, R. J., Pinheiro-Chagas, P. & Wood, G. (2012). Cognitive neuroscience and math education: theaching what kids don’t learn by themselves. International Journal for Studies in Mathematics Education, 5 (2) (Disponível em: http://periodicos.uniban.br/index.php?journal=JIEEM&page=article&op=viewArticle&path%5B0%5D=221

Willingham, D. T. (2011). Por que os alunos não gostam da escola. Porto Alegre: ARTMED.