O neuropsicólogo é um neurocientista

Extraído da edição de fevereiro de 2012 do Boletim SBNp (Sociedade Brasileira de Neuropsicologia)

brainAté alguns anos atrás era prática comum entre os psicólogos aplicarem o Teste Gestáltico Visomotor de Bender (Koppitz, 1989) e encaminhar o paciente ao neurologista quando o desempenho se caracterizava por um número excessivo de “indicadores de organicidade”. Tal prática pode ser tomada como ilustrativa de uma negligência profunda da estrutura anátomo-funcional do cérebro. É como se fosse tudo a mesma coisa. Não teria a menor importância se o comprometimento inferido fosse difuso ou focal, cortical ou subcortical, no hemisfério direito ou esquerdo, etc. Sarcástico, um grande amigo meu falava assim: “Este povo não sabe nem de que lado fica o cerebelo”. Convém não esquecer que os padrões gráficos produzidos pelas crianças se prestavam também a interpretações psicanalíticas (Koppitz, 1989).

Neuropsicologicamente o teste de Bender, junto com outras provas gráficas tais como a cópia da figura complexa de Rey (Strauss, Sherman & Spreen, 2006), é uma tarefa que avalia habilidades visoconstrutivas, sendo extremamente útil na detecção de déficits visoespaciais – ligados principalmente ao lobo parietal – e disfunções executivas – associadas tradicionalmente ao lobo frontal. Extrair do desempenho no teste de Bender apenas “indicadores de organicidade” é se comportar em relação ao cérebro como muitos pacientes com lesão do lobo parietal direito se comportam em relação ao hemiespaço contralateral, negligenciando-o.

A negligência do cérebro caracterizou algumas escolas importantes em neuropsicologia. Um exemplo ilustre é a escola psicométrica iniciada por Ward Halstead e continuada por Ralph Reitan (Reitan & Wolfson, 2009). A participação de psicólogos na neuropsicologia se intensificou somente a partir dos anos 1930 (McBryde & Weisenburg, 1935, Ombredane, 1929). Àquela época, muitos “neuropsicológos” apenas comparavam estatisticamente o desempenho de grupos de pacientes com grupos de controles em inúmeras tarefas e constatavam o poder discriminatório das diferentes provas, sem se importarem com os detalhes anátomo-funcionais. Ou seja, não havia muita preocupação com a validade de construto. Uma analogia pode ser feita com a análise behaviorista da tríplice contingência, a qual também colocava o cérebro-mente entre parênteses. Esta atitude reflete ainda o predomínio das correntes antilocalizacionistas da neuropsicologia da época (Head, 1920).

A negligência cerebral da abordagem puramente psicométrica contrasta com outras escolas da neuropsicologia, edificadas a partir de modelos anátomo-funcionais. Ges-chwind (1965a,b), p. ex., resgatou e reabilitou os conceitos localizacionistas clássicos, salientando a importância da conectividade cortico-subcortical para a interpretação dos sintomas neuropsicológicos. Por outro lado, Luria (1977) construiu seu referencial interpretativo das observações neuropsicológicas a partir do conceito de sistemas funcionais, para quais concorreria a atividade funcional de diversas regiões cerebrais anatomicamente dispersas.

A neuropsicologia cognitiva (Shallice, 1988, Temple, 1997) também foi tentada a negligenciar o cérebro na sua infância. Até meados dos anos 1960 o exame neuropsicológico era um dos principais recursos não-invasivos para o diagnóstico localizatório em neuropsiquiatria. O diagnóstico de localização era realizado com a utilização de um sistema de três coordenadas cartesianas remontando à neurologia do Século XIX (Luria, 1977). O enfoque cognitivo-neuropsicológico permitiu que os complexos padrões de processos neuropsicológicos comprome-tidos e preservados fossem interpretados em termos de modelos de processamento de informação.

O entusiasmo inicial com os modelos de processamento de informação fez com que alguns pesquisadores defendessem uma posição “funcionalista”, segundo a qual a neuropsicologia poderia prescindir dos detalhes anátomo-funcionais, concentrando-se na análise cognitiva dos sintomas (vide, p. ex., Caramazza, 1984, 1986). Esta posição foi justificável apenas enquanto a neuropsicologia cognitiva andava de tamanquinhos. Da mesma forma que a abordagem behaviorista radical foi defensável até o momento em que não havia modelos de processamento de informação, uma abordagem puramente psicométrica ou cognitiva à neuropsicologia não se sustenta mais a partir do momento em que contamos com métodos não-invasivos para investigar em tempo real os processos neurais subjacentes à atividade cognitiva.

A disseminação do uso das técnicas de neuroimagem funcional demonstrou que os modelos cognitivos constituem importantes ferramentas conceituais, permitindo mapear as complexas associações entre padrões de ativação cerebral e processos neuropsicológicos. Surgiu assim a neurociência cognitiva (Posner & DiGirolamo, 2000). A aplicação clinica da neuroimagem funcional está engatinhando, mas os neuropsicológos não podem mais ignorar os seus resultados. Sob pena de serem acusados de não saber “de que lado fica o cerebelo”.

A mensagem importante é que os construtos neuropsicológicos são neurais. A interpretação dos resultados neuropsicológicos depende de modelos da estrutura anátomo-funcional do cérebro (Haase et al., 2008a,b, 2010). A neuropsicometria é uma técnica estatística. Os modelos neurocognitivos são ferramentas conceituais. A validade de construto da neuropsicologia depende do estabelecimento de uma relação entre os seus dados empíricos e a estrutura anátomo-funcional do cérebro. O neuropsicológo é um neurocientista e, como tal, a neuropsicologia é uma área interdisciplinar de pesquisa e atuação clinica. O comportamento de restringir a neuropsicologia à aplicação de testes ou de reservar o mercado para uma área profissional como a psicologia, pode ser caracterizado como “negligência cerebral”.

por Vitor Geraldi Haase
Doutor em Psicologia Médica pela Ludwig-Maximilians-Universität zu München
Professor titular do Departamento de Psicologia da UFMG
Coordenador do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento (LND)

Referências

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Geschwind, N. (1965a). Disconnection syndromes in animal and man. Part I. Brain, 88, 237-294.

Geschwind, N. (1965b). Disconnection syndromes in animal and man. Part II. Brain, 88, 585-644.

Haase, V. G., Pinheiro-Chagas, P., da Mata, F. G., Gonzaga, D. M., Silva, J. B. L., Géo, L. A. & Ferreira, F. O. (2008a). Correlação estru-tura-função no diagnóstico neuropsicológico. In K. Z. Ortiz, L. I. Z. de Mendonça, A. F., Veloso, C. B., dos Santos, D., Fuentes, D. & D. A. Azambuja (Orgs.) Avaliação neuropsi-cológica. Panorama interdisciplinar dos estu-dos atuais na normatização e validação de instrumentos no Brasil (pp. 13-37). São Paulo: Vetor (ISBN: 9788575852484).

Haase, V. G., Pinheiro-Chagas, P., da Mata, F. G., Gonzaga, D. M., Silva, J. B. L, Géo, L. A. & Ferreira, F. O. (2008b). Um sistema nervoso conceitual para o diagnóstico neurop-sicológico. Contextos Clinicos, 1, 125-138.

Haase, V. G., Medeiros, D. G., Pinheiro-Chagas, P. & Lana-Peixoto, M. A. (2010). A “Conceptual Nervous System” for multiple sclerosis”. Psychology & Neuroscience, 3, 167-181.

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Koppitz, E. (1989). O Teste Gestaltico Bender para Crianças. Porto Alegre: ArtMed.

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