Entrevista com Prof. Dr. Guilherme Wood

Por Annelise Júlio-Costaentrevista
Extraído da edição de setembro de 2013 do Boletim SBNp (Sociedade Brasileira de Neuropsicologia)

SBNp: Gostaria de começar agradecendo por nos conceder esta entrevista. Bom, você iniciou sua caminhada dentro da neuropsicologia na UFMG e após o mestrado foi para Europa. Gostaria que você contasse um pouco sobre como formação e trajetória nessa área e também o que te fez escolhê-la.

Guilherme Wood: “Muito obrigado pela oportunidade de conceder essa entrevista, Annelise, estou muito feliz pelo convite! Minha trajetória na neuropsicologia começou no quinto período da graduação em psicologia, a partir de quando tive a honra de trabalhar com o Professor Vitor Geraldi Haase. Ele foi o meu mentor e orientador de mestra-do, foi com ele que aprendi a maioria do que sei a respeito da neuropsicologia e continuo aprendendo. Ele tem uma capacidade incrível de entusiasmar e motivar as pessoas para o trabalho científico além de uma erudição, uma criatividade, uma determinação para o trabalho e uma intuição científica extraordinárias. No laboratório do Vitor sempre houve uma conexão forte entre a investigação básica e a aplicação prática da neuropsicologia, principalmente no que tange ao desenvolvimento de habilidades de diagnóstico neuropsicológico e intervenção. Esse ambiente intelectualmente estimulante e motivador foi muito importante para moldar a minha identidade científica. Concluindo o mestrado sobre o envelhecimento cognitivo e técnicas de treinamento para contorná-lo, estava querendo ver o que ainda faltava na minha formação, consegui uma bolsa do DAAD para fazer o doutorado na Alemanha e para lá fui. Aprendi técnicas de neuroimagem, cognição numérica e também a ser autodidata. Concluído o doutorado fui fazer um post-doc em Salzburgo, Áustria, onde peguei uma birra da cognição numérica da qual ainda não me curei completamente e resolvi voltar ao tema do envelhecimento cognitivo. Depois de Salzburg fui para Graz trabalhar com reabilitação neuropsicológica, envelhecimento e neurofeedback e lá estou desde 2011.”

SBNp: Dentro da sua formação, qual diferencial você considera crucial para sua prática clínica e de pesquisador?

Guilherme Wood: “A combinação das disciplinas diferencial e experimental da psicologia no estudo do cérebro são uma das referências mais importantes para mim. Tem uma frase de Murray e Kluckhohn de 1953 que diz o seguinte: “Sob certos aspectos cada pessoa é (i) igual a todas as outras pessoas (ii) igual a algumas outras pessoas (iii) igual a nenhuma outra pessoa”. Enquanto a psicologia experimental investiga os princípios universais da cognição e do funcionamento do cérebro, a psicologia diferencial quantifica as particularidades de cada população específica e, finalmente, a clínica neuropsicológica confronta o neuropsicólogo com o universo irreprodutível de déficits e recursos de cada paciente. A neuropsicologia para mim é privilegiada porque é capaz de oferecer instrumentos de investigação desses três níveis do problema. Tem um corolário prático desse princípio, que é o domínio de uma banda larga de diferentes métodos de investigação. Por causa do caráter altamente interdisciplinar da neuropsicologia, é necessário ter mais de uma carta na manga quando se trata de responder a questões teóricas e empíricas.”

SBNp: Bom, eu sei que você é professor da Universidade de Graz na Àustria, mas gostaria que você contasse um pouco sobre sua linha de pesquisa, sua rotina como pesquisador/professor/chefe de departamento. Você faz isso tudo mesmo? Corrija-me se eu estiver errada.

Guilherme Wood: “Faço sim, de uma certa maneira. Meus post-docs e doutorandos são quem fazem a parte realmente divertida do trabalho, coletam dados e fazem análises. O momento na minha semana que mais prezo é quando sou solicitado por algum membro do meu laboratório, que por alguma razão empírica ou teórica não consegue progredir no seu trabalho. É nesses momentos que ainda me realizo como cientista. Por causa das minhas obrigações didáticas e administrativas, e da necessidade constante de aquisição de verbas de pesquisa para sustentar meu laboratório, normalmente só vejo meu pessoal quando os dados já estão prontos para que escrevamos os papers e planejemos os estudos futuros. Ter post-docs assim é uma bênção, pois eles sabem o que fazem! ”

SBNp: Qual a principal linha de pesquisa do grupo que você coordena? Conte-nos um pouco sobre ela.

Guilherme Wood: “Nomear uma linha de pesquisa como a principal seria injustiça. Os projetos em andamento momentaneamente, os quais tem sido muito bem sucedidos se relacionam com os seguintes temas:

1) Determinação de causas gerais e específicas para mudanças na resposta BOLD relacionadas à idade.

2) Emprego de treinamento de neurofeedback em ambiente domiciliar como uma ferramenta na reabilitação de déficits cognitivos associados ao acidente vascular cerebral.

3) Emprego de técnicas de realidade virtual como uma ferramenta na reabilitação de habilidades de navegação e orientação espacial associados ao acidente vascular cerebral.

4) Emprego de técnicas de movimento passivo guiado por robô como uma ferramenta na reabilitação da motricidade dos membros superiores após um acidente vascular cerebral.

SBNp: Hoje você é um grande pesquisador, com reconhecimento internacional, mas quais foram os maiores desafios que você teve que enfrentar até aqui?

Guilherme Wood: “Não sou grande coisa nenhuma, isso é exagero seu. O maior desafio que tenho na minha vida é focar meus interesses em um número restrito de tópicos. Um péssimo hábito que eu tenho é de me deixar interessar por tópicos muito díspares, como processamento numérico, envelhecimento cognitivo, reabilitação neuropsicológica, genética comportamental e assim por diante. Isso pode ser prejudicial à carreira, porque manter-se atualizado em um campo de pesquisa já toma tempo, imagine três ou quatro. Para mim é muito contra-produtivo e impede que minha produção seja maior e melhor.”

SBNp: Você ainda está em início de carreira, mas qual(is) da(s) suas contribuições você considera mais importante para neuropsicologia?

Guilherme Wood: “Não sei se é possível chamá-las de minha contribuição para a neuropsicologia. Eu escrevi meu doutorado e publiquei vários papers sobre o efeito SNARC, inclusive uma meta-análise, que segundo o Google Scholar é o meu paper mais citado. Ainda assim esse trabalho todo só me levou à conclusão de que o efeito SNARC não tem nenhum significado especial e muito menos uma utilidade, seja ela teórica, diagnóstica ou clínica. Isso não significa que os estudos que fiz sejam ruins, o problema é que o tema é um beco sem saída. Ter identificado o beco e ser honesto a respeito da sua existência é, por assim dizer, minha contribuição negativa para a neuropsicologia. Uma contribuição mais positiva está saindo do meus estudos atuais sobre neurofeedback e reabilitação neuropsicológica. Até agora encontramos evidência de plasticidade na conectividade anatômica, na coerência e frequência da atividade elétrica e, naturalmente, no desempenho comportamental dos pacientes. Contudo, ainda é cedo para avaliar o potencial dessa abordagem de uma maneira mais geral. Em cinco anos poderei te dizer com mais propriedade.”

SBNp: Quais as vantagens e desvantagens de ser pesquisador na Europa?

Guilherme Wood: “Uma grande vantagem é o ambiente intelectual rico e competitivo, no qual problemas empíricos e científicos são discutidos contínua e abertamente de uma maneira colegial, transparente e direta. Esse ambiente confronta de um modo contínuo cada um com suas próprias limitações, erros e sua incompletude. Apesar de essa confrontação ser dura para o ego, ela aguça o raciocínio e melhora muito a qualidade do trabalho científico. Eu sempre volto para casa arrasado e me sentindo um pouco inferior depois do workshop europeu de neuropsicologia cognitiva, mas esse sentimento é o que me dá forças para me superar até a próxima edição. Uma outra vantagem é o acesso a técnicas modernas de aquisição de dados fisiológicos e de neuroimagem, que fortalecem e complementam dados comportamentais. Uma última vantagem é que o currículo de psicologia é carregado de disciplinas práticas em tópicos da neurociência. Os alunos já ingressam no meu laboratório com experiência coletando dados de EEG e uma boa formação em processamento de dados, estatística e psicometria. Uma grande desvantagem de ser pesquisador na Europa é burocracia decorrente do exílio e a duração limitada dos contratos de trabalho, que fazem da vida algo bastante inseguro e difícil de planejar a longo prazo. Uma outra desvantagem da Alemanha e da Áustria é a longa duração da qualificação do cientista antes de poder se tornar professor. Para habilitar-se a concursar para o cargo de professor são necessários não um, mas dois doutorados. Essa estrutura é antiquada e afugenta pesquisadores de fora, por ser demasiado exigente.

SBNp: Você acredita que a formação de pesquisador oferecida nos EUA e na Europa são melhores que a brasileira? Por que?

Guilherme Wood: “Eu só posso responder a essa pergunta com respeito à Alemanha e a Áustria. Entre os dois países há diferenças marcantes e a Alemanha é superior à Áustria, mas nos dois casos a formação é bem superior à do Brasil. Há várias razões para isso. A primeira é que a educação científica centrada nas disciplinas STEM (science, technology, engineering, and mathematics) nesses países começa no ensino básico e é levada muito a sério. Eu tenho ouvido dos sucessos das crianças brasileiras em olimpíadas internacionais de matemática. Se essa tendência se mantiver será um grande progresso. No meu ver, esperar que a graduação ou pós-graduação sejam suficientes para formar a mente dos cientistas é uma ilusão. A curiosidade, ceticismo metódico e rigor lógico próprios da investigação científica têm de ser treinados desde a infância, já que são o catecismo do sucesso na civilização moderna. A segunda razão para a superioridade européia é o problema cultural do brasileiro com o debate científico. O brasileiro acha que discussão é briga e prefere muitas vezes ser polido com o colega a debater honestamente com ele sobre a qualidade do seu trabalho. Como escreveu Arthur Rimbaud: ‘Par délicatesse J’ai perdu ma vie’ e isso se aplica à atividade científica também. A falta de crítica é um veneno para a ciência. A produção científica brasileira cresceu muito nos últimos dez anos mas seu impacto relativo diminuiu proporcionalmente. Isso é um indício de que a produção científica brasileira é pouco criativa e muito imitativa. Para contornar esse problema é necessário intensificar o investimento atual na formação científica desde o ensino básico. Sem uma elite de jovens bem treinados na lógica do pensamento e regras do debate científico nunca passaremos à vanguarda da (neuro)ciência. Ao menos não como nação, mas somente como mentes isoladas. Cientistas brilhantes já os há no Brasil atual em mesmo número que em qualquer outro lado, mas estamos desperdiçando seu potencial por não oferecer-lhes um ambiente de trabalho mais adequado.”

SBNp: No Brasil, um dos principais temas de polêmica na área de neuropsicologia é quanto ao usos de instrumentos e o movimento que alguns conselhos profissionais fazem no intuito de restringí-los (os testes) a estas classes. Existe isso na Europa? Você trabalha num departamento de Neuropsicologia, este departamento é interdisciplinar? Como a pluralidade intrínseca à área é administrada por aí?

Guilherme Wood: “A minha experiência na Alemanha e Áustria é que as funções de cada membro das equipes interdisciplinares é muito bem delimitada. Em decorrência, há poucos motivos para conflito entre os diferentes profissionais porque nesses países a estrutura das equipes interdisciplinares já existe há décadas e – esse é um dos pontos mais importantes de todos – tem cobertura quase total pelo seguro de saúde, que nesses países é obrigatório. No Brasil, as primeiras experiências verdadeiramente interdisciplinares são mais raras e bem mais recentes. Além do mais, o modelo adequado para as equipes ainda está em fase de elaboração e refinamento, cada um ainda está lutando pelo seu espaço no cenário geral. Mas o cenário está mudando rapidamente entre outras razões por causa de uma tomada de consciência de que os custos e os transtornos associados a uma reabilitação incompleta ou malfeita são altos demais para serem repassados à sociedade. Daí surge o esforço conjunto em combinar as competências de múltiplos profissionais para incrementar o resultado do esforço de reabilitação. É natural que nesse processo cada grupo profissional queira ampliar o seu quinhão o mais que possa. Quem for o primeiro a ter o tratamento reconhecido e pago pelos planos de saúde vai se estabelecer. Com respeito à restrição ao uso de testes tenho que dizer, numa nota mais pessoal, eu tenho ojeriza a toda reserva de mercado baseada em títulos profissionais inespecíficos. Quem tem formação específica – e só quem tem formação específica – deve ter o direito de empregar os instrumentos de diagnóstico ou reabilitação. Contudo, as portas da qualificação específica devem, no meu ver, estar abertas a profissionais das mais diversas origens.”

SBNp: O que você acha da profissionalização do cientista?

Guilherme Wood: “Essa é uma questão bastante complexa. Por um lado é inegável a necessidade de conceder um status trabalhista aos doutorandos e post-docs. Na Alemanha, Holanda, Áustria, França e Grã-Bretanha a maioria absoluta dos estudantes têm contratos de trabalho e direito a previdência social, plano de saúde, férias, abono de Natal e todas as outras vantagens de um trabalhador. No Brasil, a estrutura é baseada na concessão de bolsas e provém de uma época em que todo mundo já tinha emprego fixo na universidade mesmo antes de terminar o mestrado. A bolsa era só para dar mobilidade ao estudante, já que os direitos e contribuições trabalhistas já estavam todas contempladas de antemão. O que precisamos no momento atual é um modelo de contratação que garanta os direitos trabalhistas justos aos estudantes de doutorado e post-doc para o período de estudos sem que isso leve a complicações jurídicas posteriores para seus empregadores. Nesse contexto não consigo antever como o reconhecimento da profissão de cientista poderia contribuir positivamente para a discussão, até acredito num impacto negativo.

SBNp: Você pensa em voltar para o Brasil algum dia? Por que? 

Guilherme Wood: “Sim, penso, mas no momento não vejo como. No meu laboratório eu tenho quinze mestrandos, cinco doutorandos e três post-docs. Se voltasse hoje ao Brasil não teria nem direito a orientar um mestrando sequer e precisaria iniciar minha carreira de novo desde o chão. Até que a legislação regulando a admissão de professores seja corrigida e contemple a experiência prévia de cada um, é suicídio profissional regressar ao Brasil depois de 10 anos de experiência profissional no exterior.”

SBNp: Com um olhar de estrangeiro, como você percebe a neuropsicologia brasileira hoje? E quais perspectivas você vislumbra?

Guilherme Wood: “Mais preciso seria dizer com olhar de exilado! A neuropsicologia está em pleno desenvolvimento no Brasil. A neuropsicologia científica tem que empregar com mais afinco os métodos neurocientíficos disponíveis como EEG, MRI, NIRS, TDCS e TMS uma vez que uma neuropsicologia baseada somente na avaliação psicométrica de casos isolados já deixou há muito tempo de ser o método de referência da neuropsicologia. A neuropsicologia clínica tem que lutar pelo seu espaço em áreas críticas nas quais outros profissionais não estão devidamente capacitados para oferecer assistência ao paciente. Com o aumento na sobrevida dos pacientes neurológicos o custo de uma reabilitação malfeita é extraordinário. Um outro campo muito importante é a neuropsicologia do desenvolvimento. Uma vez mais, os custos de uma educação precária, incompleta e inadequada para a sociedade sao altos demais e o neuropsicólogo do desenvolvimento tem muito a dizer a respeito das possibilidades de diagnóstico e intervenção em transtornos do desenvolvimento. Outras áreas em que a neuropsicologia tem muito a oferecer são a (re)orientação vocacional e a reabilitação voltada para o regresso à carreira após uma lesão cerebral. Um outro ponto de inserção importante para a neuropsicologia é o exame de qualificação para o trânsito. Só um neuropsicólogo está realmente em condições de avaliar a habilidade de direção em indivíduos com lesões cerebrais. Em todos esses casos é necessário ampliar o instrumentário do neuropsicólogo com mais testes de lápis-e-papel e computadorizados, mais instrumentos de reabilitação, principalmente aqueles que podem ser utilizados à distância pelos pacientes, pois assim se resolve problemas de custo, mobilidade e acessibilidade do tratamento para o paciente. Para isso é preciso investimento, sem testes bem normatizados é impossível fazer diagnóstico correto. Nesse sentido instituições como a SBNp podem ajudar muito criando um fundo para desenvolvimento e normatização de testes, criando e administrando uma rede nacional de parceiros para agilizar e baratear a normatização de instrumentos diagnósticos e de reabilitação. Além disso é de interesse público que bons testes sejam desenvolvidos e responsabilidade do governo que haja as condições para que esses testes sejam desenvolvidos e aprimorados.”

SBNp: Qual seu conselho para um aluno de graduação que está iniciando na neuropsicologia? E para um aluno de pós-graduação? (Desiste enquanto é tempo e vai fazer engenharia (risos))

Guilherme Wood: “Engenharia com certeza não é uma má opção! (risos) Mas a neuropsicologia também não é tão má assim. Se o objetivo é se tornar um bom neuropsicólogo clínico, uma formação sólida em diagnóstico é imprescindível e começa com um bom domínio da psicometria, psicologia cognitiva e das teorias de testes. Só quem conhece a fundo as propriedades dos seus próprios instrumentos de diagnóstico é capaz de usá-los corretamente e eventualmente aprimorá-los ou até criá-los. Experiência clínica também é essencial, mas só terá valor caso o estudante esteja bem preparado para aproveitá-la. Se o objetivo do estudante é se tornar um neuropsicólogo científico, uma formação sólida em processamento de sinais, programação, psicometria e planejamento de experimentos é essencial desde o começo, quem chega ao doutorado sem domínio dessas áreas simplesmente perdeu o bonde. Dominar ao menos uma técnica eletrofisiológica ou de neuroimagem também ajuda bastante.

wood

Guilherme Wood é professor da Universidade de Salzburg, Áustria. Possui graduação e mestrado pela UFMG, e Ph.D. na Alemanha.