Fatos que você não viu na escola e pode aprender com os iletrados

Iletrados são pessoas que por alguma razão não foram alfabetizados e não frequentaram a escola na idade certa. Certamente você já conheceu alguém nesta situação. A alfabetização é atualmente uma prioridade mundial e diversos programas têm sido desenvolvidos em caráter universal a fim de evitar a evasão escolar e diminuir as taxas de analfabetismo. Todavia o Brasil, infelizmente ainda tem um longo percurso a atravessar para diminuir esta taxa, principalmente em adultos. Segundo dados da Unesco Institute for Statistics (UIS,2013) o nosso país é o 8º no ranking mundial de analfabetismo, tendo no ano de 2012 8,7% da população acima de 15 anos nesta situação.

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O nível de iletramento é classificado como um continuum pela Unesco. O analfabetismo ou iletramento, é considerado a escassez de habilidade de leitura de palavras e números a ponto de comprometer a execução de tarefas simples do dia a dia como usar o telefone ou escrever o próprio nome. Já sujeitos semi-iletrados ou alfabetizados rudimentarmente, são aqueles que conseguem executar pequenas tarefas que exijam reconhecimento de palavras e números e conseguem extrair informações de pequenos textos ou combinações numéricas familiares (UIS,2013).

Apesar da prioridade que é dada atualmente para a escolarização, nem sempre foi assim. Há alguns anos atrás, muitas crianças não iam a escola e não eram alfabetizadas, e isto não era visto como um grande problema. Em um estudo lusitano, Petersson e colaboradores (2001), perceberam que grande parte dos sujeitos iletrados de uma comunidade de pescadores no sul de Portugal eram os filhos mais velhos de famílias pobres, que por necessidade de ajudar os pais não frequentaram a escola. Os filhos mais novos, por sua vez, eram alfabetizados, posto que já nasciam em um ambiente com mais recursos. Os pesquisadores sugerem então, que nesta população, a ordem do nascimento afetou a alfabetização. Entretanto existem outras possíveis causas para o iletramento, uma delas é a dificuldade de aprendizagem que muitas vezes levam estes indivíduos ao abandono escolar. Experiências de fracasso aliada a falta de importância dada à educação há alguns anos atrás, levavam alguns indivíduos a abandonarem os estudos antes de aprender a ler e escrever. (Ardila,2010).

Estas crianças que há anos atrás abandonaram os estudos são hoje, adultos iletrados, que apesar de não terem frequentado a escola são funcionais e conseguem trabalhar e realizar atividades diárias sem grandes dificuldades.  A funcionalidade destas pessoas e a capacidade de extrair informação do ambiente sem dominar a leitura e escrita são um campo de estudo intrigante para a neuropsicologia. O estudo com iletrados desperta muito interesse por que possibilita investigar as funções cognitivas sem a influência da educação/letramento. No Brasil, não é difícil encontrar pessoas com algum nível de iletramento, o que possibilita ainda mais o desenvolvimento destas linhas de pesquisa.

Algumas investigações sobre a cognição em iletrados já realizadas, sugerem que existe influencia do letramento no desenvolvimento de múltiplas funções cognitivas, como atenção (Bruck & Nitrini,2007), memória (Reis,  Guerreiro, & Petersson,2003) e processamento visoepacial (Ardila, Rosselli, & Rosas, 1989). Todavia, um campo ainda pouco estudado nesta população é o da cognição numérica. Por exemplo, cabe pensar: de que maneira estas pessoas realizam tarefas complexas como cálculos de dinheiro se não frequentaram aulas e não sabem algumas vezes, escrever o próprio nome?

Alguns pesquisadores têm mostrado que quando os analfabetos têm recursos reais eles conseguem efetuar cálculos matemáticos normalmente, todavia quando se trata de cálculos apresentados no formato lápis e papel eles têm muita dificuldade. Um bom exemplo é a famosa observação realizada por Terezinha Carraher e colaboradores (1988). Eles mostraram que adolescentes brasileiros que trabalhavam como vendedores ambulantes realizavam com destreza todos os tipos de transação financeira nas ruas. Efetuavam a todo o momento soma de valores, multiplicação, subtração para dar trocos entre outras contas.  Contudo, eles não conseguiam resolver os mesmos cálculos quando eram apresentados no papel. Por que isto acontece e como explicar? Outra questão importante é: será que no contexto de avaliação neuropsicológica de iletrados, a forma como as avaliações são conduzidas e os estímulos usados contemplam essas peculiaridades?

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Ainda existem poucos estudos que investigaram a fundo esta questão. Segundo a própria Carraher (1988) o aprendizado de algoritmos apesar de facilitar o processo, diminuir o tempo de execução e os erros em pessoas alfabetizadas, parece não ser fundamental para realização de cálculos em iletrados. Isto sugere que eles têm estratégias de realização de cálculos diferentes das pessoas alfabetizadas e estas estratégias funcionam relativamente bem. Mas não se sabe ao certo, que estratégias seriam estas. Outros pesquisadores propõem que, além disto, os iletrados criam um sistema de dicas para classificar as coisas, já que eles não conseguem ler com facilidade. Por exemplo, a cor e formato dos objetos podem ser importantes quando eles ainda estão se familiarizando com determinado instrumento (Reis et. al. 2003). Ou seja, saber que a nota amarela (vinte reais) vale duas da rosa (dez reais) é uma boa dica para usar dinheiro. Estas relações vão se multiplicando e a partir daí os iletrados começam a criar seu sistema de cálculos.

As peculiaridades desta população não param por aí. Algumas pesquisas mostram também que a arquitetura cerebral difere em função da escolarização. Apesar dos iletrados conseguirem realizar algumas tarefas neuropsicológicas sem diferir dos participantes alfabetizados, as regiões cerebrais recrutadas são um pouco diferente. Em relação a funções como linguagem os estudos são bem claros, e mostram uma ativação cerebral mais heterogênea em analfabetos, do que em pessoas alfabetizadas (Castro-Caldas, Petersson,Reis, Stone-Elander, & Ingvar;  Petersson et.al. 2001).

O perfil dos iletrados é um desafio para a neuropsicologia, uma vez que grande parte dos instrumentos não captam as peculiaridades desta população. A avaliação formal precisa estar aliada a instrumentos que avaliem de maneira contextual, utilizando estímulos conhecidos por esta população. O uso de tarefas envolvendo notas de dinheiro, relógios, fitas métricas e outros objetos deve ser pensado. Algumas pesquisas que utilizaram tarefas contextuais mostraram que estes são bons instrumentos para avaliação iletrados, uma vez que permitem avaliar mais genuinamente as habilidades cognitivas deles. (Reis et.al.2003; Martini, Domahs, Benke & Delazer, 2003; Carraher et. al. 1982;). Entretanto ainda existem muitas questões a serem respondidas sobre iletramento e cognição e principalmente sobre cognição numérica. Ainda é preciso descobrir muita coisa.

Gizele Alves Martins

Mestranda em Neurociências/ UFMG

 

Referências:

Ardila, A., Rosselli, M., & Rosas, P. (1989). Neuropsychological assessment in illiterates: Visuospatial and memory abilities. Brain and cognition, 11(2), 147-166.

Ardila, A., Bertolucci, P. H., Braga, L. W., Castro-Caldas, A., Judd, T., Kosmidis, M. H., Matute, E., et al. (2010). Illiteracy: the neuropsychology of cognition without reading. Archives of clinical neuropsychology the official journal of the National Academy of Neuropsychologists, 25(8), 689-712.

Brucki, S. M. D., & Nitrini, R. (2008). Cancellation task in very low educated people. Archives of Clinical Neuropsychology23(2), 139-147.

Carraher, T. N., Carraher, D. W., & Schliemann, A. D. (1988). Na vida dez, na escola zero.

Castro-Caldas, A., Petersson, K. M., Reis, A., Stone-Elander, S., & Ingvar, M. (1998). The illiterate brain. Learning to read and write during childhood influences the functional organization of the adult brain. Brain121(6), 1053-1063.

Martini, L., Domahs, F., Benke, T., & Delazer, M. (2003). Everyday numerical abilities in Alzheimer’s disease. Journal of the International Neuropsychological Society9(06), 871-878.

Petersson, K.M., Reis, A., & Ingvar, M. (2001). Cognitive processing in literate and illiterate subjects: A review of some recent behavioral and functional neuroimaging data. Scandinavian Journal of Psychology, 42, 251–267.

Reis, A., Guerreiro, M., & Petersson, K. M. (2003). A sociodemographic and neuropsychological characterization of an illiterate population. Applied Neuropsychology, 10(4), 191-204.

Institute for Statistics. Adult and youth literacy: National, regional and global trends, 1985-2015. (2013). Disponível em <http://www.uis.unesco.org/Education/Documents/literacy-statistics-trends-1985-2015.pdf >. Acessado em 01 jun 2014.