O abc do abc: como as crianças aprendem a ler

(Notas sobre o II Fórum Mundial de Dislexia)

wdf

Essa semana aconteceu em Belo Horizonte, o II Fórum Mundial de Dislexia (II WDF), evento de grande porte que trouxe os maiores nomes da área para o Brasil. O Fórum foi espaço de discussão sobre várias questões referentes ao processos de alfabetização e suas dificuldades.

O primeiro ponto que gostaria de destacar é que o letramento é um instrumento importante para a autonomia do indivíduo e para que, consequentemente, ele possa desfrutar e exercer sua cidadania. Infelizmente, no nosso país, ainda existe um número considerável de analfabetos, e, pior ainda, de “analfabetos funcionais”. Este problema se insere num contexto político-pedagógico que, paradoxalmente, se propõe a desenvolver leitores críticos, mas negligencia o passo anterior: ensinar a leitura per se.

Os resultados do último PISA1 (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) indicaram que o Brasil ocupa a 55ª posição no ranking de leitura, resultado que é inferior ao da última avaliação e está 86 pontos abaixo da média dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Praticamente metade dos alunos (49.2%) não alcança o nível de 2 de leitura, o que indica que eles não consegue deduzir informações do texto. Então o objetivo de desenvolver leitores críticos não está sendo atingido. Longe disso. Por que?

Infelizmente, no Brasil, a pedagogia de ensino de leitura/escrita ainda é anacrônica e não faz parte de uma prática baseada em evidência. A psicologia cognitiva e, mais recentemente, a neurociência, têm demonstrado, de forma bastante consistente, evidências que a melhor forma de aprender a ler é através do estabelecimento da relação letra-som. Em outras palavras, é crucial que a criança consiga fazer a relação entre determinado grafema e o som que ele representa.

Na década de 50, estava em voga um método alternativo de alfabetização que ficou conhecido como “método global”, ou “método holístico” que, em contrapartida, enfatizava a compreensão do significado da palavra. Obviamente, este método foi um fracasso e apresentarei o porquê.

No primeiro dia de aula, a criança era apresentada a um livrinho, que seria o guia utilizado para o processo de alfabetização. Existiam vários deles e abaixo está a primeira página do “Livro de Lili”:

lili

Como vocês podem ver, o primeiro texto já era extremamente difícil para um jovem leitor: encontros consonantais (lh, ch, st) e palavras acentuadas para quem ainda nem aprendeu a escrever “bola”! As aulas progrediam numa estratégias de memorização do conteúdo e posterior assimilação da forma da palavra ao que era lido.

Atualmente, já existem evidências que esta estratégia não dá conta de fornecer o embasamento para que a criança avance na aprendizagem da leitura. O foco na forma da palavra faz parte de uma etapa inicial da leitura, o que é facilmente observado em crianças de 3 anos que, ao verem essa palavra, conseguem “ler” o que está escrito:

m

Esta leitura logográfica faz parte de uma etapa inicial de aquisição da leitura. Para que a criança consiga progredir na aprendizagem ela deve desenvolver, imperativamente, a habilidade de estabelecer a relação letra-som. Nem mesmo um computador daria conta de armazenar as formas de todas as palavras existentes no léxico do português!

O método fônico2, que se fundamente em ensinar os sons das letras e, a partir delas, permitir que a criança faça agrupamentos para alcançar a pronúncia completa da palavra, permite a generalização e aprendizado das regularidades da ortografia. É crucial que essa informação seja incorporada nas práticas pedagógicas de alfabetização. Felizmente, é notável que os profissionais de pedagogia têm comparecido em massa nos eventos científicos como o II WDF. Acredito que este é um reflexo do interesse em aprender estratégias mais eficazes para estimular o processo de aprendizagem, já que simplesmente “o prazer pelo significado” não basta para que as crianças se tornem leitores proficientes e cidadãos autônomos.

Não é que o sentido das palavras ou a leitura crítica não sejam importantes. Mas esses processos devem ser vistos como consequência, como meta a ser buscada, após promover as condições adequadas para que a criança consiga aprender o be-a-bá.

  • Júlia Beatriz Lopes Silva
  • Psicóloga
  • Doutoranda em Saúde da Criança e do Adolescente
  1. http://www.oecd.org/pisa/
  2. CAPOVILLA, Alessandra G. S.; CAPOVILLA, Fernando C. Alfabetização: método fônico. 4. ed – São Paulo: Memnon, 2007