Uma palmada não dói: qual o efeito da punição para modificação do comportamento infantil?

Como dizem por aí: “Uma palmada não dói”. É o que se diz para justificar o uso de uma disciplina baseada na punição e na tentativa de ajustar o comportamento infantil inadequado, de uma forma, em que na maioria dos casos, não se observa um resultado eficiente.

De acordo com a Análise Experimental do Comportamento, uma forma eficaz de modificação comportamental é através de esquemas de reforçamento, que consideram que a presença de comportamentos inadequados se dá pela seleção de consequências. Os esquemas de reforçamento são baseados em um modelo que pondera uma tríade de eventos, sendo o evento antecedente, o comportamento em si e o evento consequente.  Segundo esse modelo, o comportamento é mantido de acordo com o que o antecede (ou favorece sua manutenção) e/ou pela consequência relacionada a esse comportamento.  Se a consequência favorece o aumento da frequência desse comportamento, tal consequência é chamada de reforçadora. O reforço positivo se dá quando é acrescentado algo que manterá o comportamento, por exemplo, um reforço social (sorriso, sinal de aprovação, etc). Já o reforço negativo está relacionado ao aumento da frequência de comportamento, através da retirada de um estímulo aversivo.

A punição, ao contrário do reforço, é segundo Skinner (1993), uma forma questionável de ser utilizada como técnica educativa, já que envolve desvantagens do ponto de vista, emocional, social e de resolução de problemas. Em experimentos com animais, em laboratório, o que se vê é que, quando um comportamento é reforçado, por exemplo, quando o animal recebe alimento após pressionar uma barra, a frequência do comportamento desejado aumenta, e o animal passa a pressionar a barra mais vezes, dentro da situação testada. Já quando o animal, ao pressionar a barra (comportamento alvo), recebe um choque (punição), ele deixa de emitir esse comportamento, porém, após algum tempo, o animal volta a pressionar a barra, mesmo quando sabe que será punido (receberá um choque).  A conclusão desse tipo de estudo, é que a punição não é capaz de manter um comportamento em longo prazo, ao contrário de quando se utiliza o reforço, como forma de manter/aumentar a frequência de um comportamento.

Além de não conseguir manter um comportamento adequado, ou extinguir um comportamento inadequado, o uso da punição apresenta algumas implicações negativas para o desenvolvimento infantil. O uso frequente de estratégias punitivas, para educar, pode levar ao aparecimento de emoções negativas, como raiva, ódio, culpa, entre outras. Além disso, predisposições para fuga, esquiva e contra-controle das crianças em relação aos seus educadores, também são frequentes. A punição como estratégia educativa, não é capaz de ensinar um novo comportamento, alternativo ao comportamento inadequado, à criança. Ela apenas ensina o que não se deve fazer, o que em muitos casos, não será o suficiente, já que a criança, sem um repertório comportamental alternativo, manterá a probabilidade de se comportar da mesma forma como anteriormente.

Esse é um dos grandes problemas gerados pela utilização da punição como recurso disciplinar. A punição é capaz de gerar um ciclo, que se torna difícil de ser rompido, já que a família começa a funcionar, através de uma lógica viciosa, por entender que a punição vai modificar o comportamento infantil inadequado. A figura 1 mostra o ciclo vicioso, gerado pelos efeitos de uma disciplina coerciva, baseada na punição.

Extraído da Cartilha de treinamento de pais (Pinheiro et al., 2006)

Extraído da Cartilha de treinamento de pais (Pinheiro et al., 2006)

Outro problema gerado pelo uso da disciplina coerciva está relacionado ao modelo inadequado de resolução de problemas, fornecido à criança. A punição pode ter uma transmissão intergeracional, o que é explicado pela Teoria da aprendizagem Social (Bandura, 1961).  Bandura (1961), em seus experimentos, verificou que quando uma criança era exposta a um modelo agressivo de interação com um boneco, ela reproduzia o mesmo modelo quando era estimulada a interagir com o brinquedo. Já uma criança exposta a um modelo adequado de interação com o boneco, reproduzia também, o modelo adequado. A teoria da aprendizagem social, nos mostra que quando uma criança é exposta a um modelo agressivo de interação, ela terá maior probabilidade de reproduzir tal modelo em suas interações sociais. Sendo assim, uma criança que é educada através de uma disciplina coerciva, tem maior probabilidade de emitir as mesmas estratégias utilizadas com ela, em outros contextos, tais como na escola e em casa, com os irmãos.

Muitas vezes, recursos disciplinares punitivos são utilizados, por não se ter conhecimento de estratégias diferente, ou mais eficientes que os primeiros.  Como alternativa à utilização de métodos disciplinares baseados na coerção, têm se verificado algumas estratégias de sucesso, relacionada à disciplina não-coerciva. A disciplina não-coerciva, se baseia na premissa de que os comportamentos inadequados podem ser modificados através de técnicas comportamentais, baseadas no incentivo (ou reforço) de comportamentos adequados. Além disso, a utilização da disciplina não coerciva exige dos pais e educadores, habilidade de negociação, conversa e estabelecimento de regras e limites.  Tais habilidades estão relacionadas a um grupo de recursos disciplinares, denominados Habilidades Sociais Educativas (HSE).  Um maior repertório de HSE, demonstradas por pais e educadores, tem impacto direto no desenvolvimento do repertório social da criança.  Dessa forma, entende-se que, quanto maior o repertório de HSE educativas e o uso da disciplina não coerciva, por pais e educadores, maior será o repertório de comportamentos adequados apresentados pela criança.

Programas de Treinamento de Pais (TP), baseados no desenvolvimento de Habilidades Sociais Educativas, tem sido utilizados para orientação de pais, na modificação do comportamento infantil. O Treinamento de Pais tem sido utilizado como um modelo de intervenção muito eficaz na modificação do comportamento, já que prevê o aumento de recursos disciplinares não coercivos, de pais e cuidadores.

Nos dias 3 e 4 de outubro, o Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento ofertará um curso para profissionais da área de Psicologia, que abordará temas relacionados à criação e implementação de programas de Treinamento de Pais. O curso ainda contemplará questões relacionadas à disciplina não coerciva, avaliação comportamental e estratégias de modificação de comportamento.

Para maiores informações e inscrição acesse o link

http://gestaodecursoseeventos.com.br/CAE/DetalharCae.aspx?CAE=6406

Larissa de Souza Salvador

Psicóloga

Mestranda pelo PPG Neurociências- UFMG

Referências:

Skinner, B. F. Ciência e Comportamento Humano. 8 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

Bandura, A., ross, d., & ross, s. A. Transmission of aggression through imitation of aggressive models (1961). Journal of Abnormal and Social Psychology, 63, 575-582.

Pinheiro, M. I. S., Haase, V. G., Amarante, C. L. D., Prette, A. D., Del Prette, Z. A. P. D. Treinamento de Habilidades Sociais e educativas para Pais de Crianças com Problemas de Comportamento (2006). Psicologia: Reflexão e Crítica, 407-414.