Na ponta dos dedos!

“Um homem comum maravilha-se com coisas incomuns; um sábio maravilha-se com o corriqueiro”. Sob a luz do pensamento de Confúcio, convido você, leitor, ao exercício de questionar o óbvio o qual é feito por tantos sábios e cientistas. Para começarmos a nossa conversa, proponho que mudemos de ambiente: vamos todos à uma aula de Matemática em uma turma do segundo ano do Ensino Fundamental.

contandodedos

Dentre todas as situações oriundas de uma sala lotada de crianças que são dignas de nota, irei destacar um fato bastante banal que certamente não seria percebido, mas nós, sábios e cientistas, o faremos passar pelo crivo de nossa indagação. Nesta sala, boa parte das crianças está contando nos dedos para resolver o exercício de continhas passado pelo professor. Por quê? Por que contamos nos dedos? E, principalmente, é realmente importante que façamos isso?

Há alguns anos, estudiosos se dedicam a responder perguntas dessa ordem e algumas descobertas muito interessantes foram feitas acerca da relevância do uso dos dedos para o desenvolvimento de habilidades aritméticas, embora ainda não haja um arcabouço teórico consistente a partir do qual se faça possível estabelecer uma conexão clara entre esses elementos.

As representações numéricas baseadas nos dedos (RNBD) consistem no desenvolvimento das estratégias de contagem e de  formas específicas de mostrar quantidades com os dedos, o uso destas é algo que parece ser virtualmente universal. Isso significa que em todas as culturas até então investigadas tais fenômenos foram observados, no entanto, as maneiras como estes se expressam variam de acordo com os grupos estudados, ou seja, em cada cultura há um padrão distinto para se contar ou mostrar quantidades, esse padrão é chamado de Padrão Canônico.

Evidências apontam que as representações numéricas em forma canônica são mais facilmente reconhecidas em comparação com aquelas não canônicas, diante disso, é possível inferir um significado simbólico das RNBD canônicas.

Bem, e o que isso nos diz? As RNBD canônicas, assim como o desenvolvimento verbal da contagem, auxiliam os pequenos aprendizes a fazer a correspondência entre as formas numéricas verbais e arábicas (“2” ou “dois”) e os códigos analógicos (“**”), podendo ser consideradas como uma ponte entre as habilidades matemáticas mais elementares cuja expressão é inata e os conhecimentos numéricos mais avançados construídos pelas diversas culturas os quais dependem de instrução formal para serem adquiridos.

Pesquisas nos fazem supor que o uso dos dedos constitui um elemento intrínseco e  indispensável ao aprendizado da matemática, bem como à formação da concepção de número. Um estudo feito por Marie-Pascale Noël em 2005 com crianças na primeira série apontou que a percepção sensível dos dedos (gnosia digital) esteve correlacionada com o desenvolvimento de habilidades numéricas nos quinze meses subsequentes. Outro relevante trabalho na área sugeriu que a contagem é uma ferramenta muito útil na redução da carga da memória de trabalho durante a  resolução de problemas de cálculos e, por fim, existem indícios da ativação da região das mãos no córtex motor em adultos  mesmo na resolução de tarefas que não demandam o emprego de estratégias motoras, como, por exemplo, o julgamento da paridade de números.

A ciência nos permite desconstruir as noções mais sedimentadas estabelecidas pelo senso comum. Não é raro presenciar na prática educacional situações nas quais as crianças são desincentivadas a utilizar os dedos. Comumente, supõe-se que estratégias desse tipo são prejudiciais ao aprendizado da matemática. Os dados encontrados pela literatura, todavia, nos indicam o contrário: usar os dedos é uma prática tão fundamental a ponto de se expressar universalmente e estar relacionada a mecanismos cognitivos essenciais ao desempenho na matemática, como a memória de trabalho.

Diante disso, é possível perceber que usar os dedos é  aparentemente simples, entretanto,  pode fazer toda diferença no aprendizado de crianças no início da vida escolar, principalmente para aquelas que possuem alguma dificuldade.  Ainda há muito a ser investigado nesta área, é preciso que tantos outros sábios e cientistas maravilhem-se com o corriqueiro, buscando estabelecer e difundir conhecimento científico a fim de munir professores, professoras, pais e estudantes de estratégias cada vez mais efetivas de ensino e aprendizagem da matemática.

 

Nicole Oliveira Carvalho

Aluna de Iniciação Científica

 

Referências:

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