Dando uma mãozinha: compreendendo as habilidades bimanuais em crianças com paralisia cerebral

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Se fizéssemos a pergunta “qual das habilidades motoras é a mais importante para você?”, nem todos se lembrariam da preensão manual e pinça fina. Apesar dessas habilidades serem raramente mencionadas, quando as circunstâncias tornam esses movimentos mais difíceis do que o normal, como ao fraturar o braço, as pessoas refletem um pouco mais sobre sua importância.

Para as crianças com paralisia cerebral do tipo hemiplégica essa dificuldade em realizar os movimentos com o membro superior acometido é constante, limitando atividades que precisam de manipulações bimanuais para sua execução. Essas atividades limitadas podem estar relacionadas desde ao auto-cuidado ao brincar, até abotoar camisa ou fechar casacos de zíper, segurar um brinquedo que precise ser apreendido pelas duas mãos, abrir um pacote de chips, manusear os talheres durante a refeição, dentre outros.

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Essas dificuldades são resultantes dos déficits de força, alterações do tônus muscular e da sensibilidade, causados pela lesão cerebral. O comprometimento motor predominante em um lado do corpo faz com que a criança tenha uma preferência em usar o membro superior saudável.

O termo “developmental disregard” foi proposto para caracterizar a “incapacidade em utilizar as funções motoras potenciais e capacidades do braço e mão afetados durante o uso espontâneo na vida cotidiana” presente em crianças com paralisia cerebral hemiplégica. Além da falta de atenção e automação relacionadas ao desuso do membro superior na PCH, estudos também sugerem que a representação do corpo pode ser prejudicada nessas crianças (FONTES; MOURA; HAASE, 2014).

A consciência ou percepção corporal é baseada no reconhecimento do próprio corpo e do espaço através da visão, estímulos táteis, audição, propriocepção e equilíbrio, sendo assim um processo fundamental para controlar a percepção e ação. Existem diferentes mecanismos envolvidos na representação corporal e o processamento do conhecimento relativo ao próprio corpo compreende o esquema corporal (EC), a descrição estrutural do corpo (DEC) e a imagem corporal (IC).

O EC é caracterizado por atualização contínua com o movimento e adaptação a mudanças nas propriedades do corpo, fornecendo uma representação “on-line” das propriedades do corpo no espaço. A DEC fornece informações sobre a forma e os contornos da superfície do corpo. Em contraste com o EC, que parece ser derivado de várias entradas sensoriais e motoras, a DEC é postulada como derivada principalmente da entrada visual. A IC inclui a informação semântica lexical sobre o corpo humano, como os nomes das partes do corpo, as associações entre partes do corpo e artefatos, e a função de diferentes partes do corpo.

Apesar da escassez de estudos sobre as alterações sensoriais e representacionais envolvidas na realização de atividades bimanuais na paralisia cerebral hemiplégica, duas referências das décadas de 50 e 60 já chamavam a atenção para isso. Ajuriaguerra e Stucki mostraram que as crianças com PCH apresentam dificuldades em atividades funcionais que não podem ser explicadas apenas a nível motor. Nas observações clínicas isso pode ser confirmado.

A representação mental do corpo é elaborada progressivamente graças às aferências sensoriais que, desde o início da vida, mantêm uma ligação com a motricidade. Assim, é possível que as dificuldades em utilizar o membro acometido como apoio vão diminuindo à medida que a criança vai se desenvolvendo. A explicação para essa melhora está no fato de que o cérebro imaturo se recupera devido plasticidade cerebral, pois a localização das funções corticais ainda estaria pouco definida, podendo ser assumida por áreas corticais às quais elas não pertencem normalmente. No entanto, essas várias áreas interligadas são influenciadas por fatores ambientais, maturacionais e orgânicos.

Mais estudos sobre esses aspectos são necessários. É esperado que o diagnóstico de distúrbios relacionados com a percepção e representação do corpo em crianças com paralisia cerebral tenham implicações diretas na elaboração de estratégias de reabilitação. Terapeutas não devem apenas dirigir a atenção das crianças e suas famílias para o membro comprometido e suas possibilidades funcionais, mas também devem ajudar a construir representações mais ricas e complexas das partes do corpo em vários níveis.

Happy child with painted hands

A equipe de psicólogos e fisioterapeutas do LND desenvolve um grande projeto para estudar tais aspectos e propõe terapias para ajudar crianças e adolescentes que apresentam dificuldades em usar os membros superiores durante as atividades de vida diária. A presente linha de pesquisa trabalha na elaboração e adaptação de instrumentos neuropsicológicos para a avaliação da percepção e da representação do corpo em crianças com PCH, bem como na aplicação dos instrumentos desenvolvidos; treinamento de pais de crianças com PCH; reabilitação com uso de imagética motora em crianças com PCH. Além disso, visando facilitar o processo de inclusão e a aprendizagem escolar, iniciou-se a pesquisa sobre a “Influência da Representação Corporal na Aprendizagem da Matemática” – Leiam também o texto Na ponta dos dedos para compreender melhor essa hipótese.

Caso você deseje mais informações sobre os projetos, ou tenha interesse que a criança sob sua responsabilidade participe dessa pesquisa, é só ligar no ambulatório e pedir mais informações sobre os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos.

 

Thalita Karla Flores Cruz

Fisioterapeuta

Mestranda pelo PPG Neurociências – UFMG

 

Referências:

Ajuriaguerra, J., & Stucki, J.D. (1969). Developmental disorders of the body schema. In: P.J. Vinken, & G.W. Bruyn (Eds.), Disorders of speech, perception and symbolic behaviour (series title: Handbook of clinical neurology, vol. 4, pp. 392-407). New York: North Holland.

Beckung, E., & Hagberg, G. (2002). Neuroimpairments, activity limitations, and participation restrictions in children with cerebral palsy. Developmental Medicine & Child Neurology, 44(5), 309-316.

Coslett, H. B., Saffran, E. M., & Schwoebel, J. (2002). Knowledge of the human body: a distinct semantic domain. Neurology, 59(33), 357-363.

Fontes, P. L., Moura, R., & Haase, V. G. (2014). Evaluation of body representation in children with hemiplegic cerebral palsy: toward the development of a neuropsychological test battery. Psychology & Neuroscience, 7(2), 139-149.

Houwink, A., Aarts, P., Geurts, A. C., & Steenbergen, B. (2011). A neurocognitive perspective on developmental disregard in children with hemiplegic cerebral palsy. Research in developmental disabilities, 32(6), 2157-2163.

Schwoebel, J., & Coslett, H.B. (2005). Evidence for multiple, distinct representations of the human body. Journal of Cognitive Neuroscience, 17(4), 543-553.