Quais habilidades sociais os pais precisam ter e sua importância

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O Programa de Treinamento de Pais (PTP), já abordado em outros textos do blog do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento (LND), é um programa que orienta pais a desenvolverem uma postura não coerciva na educação de seus filhos. O programa se baseia nos conceitos de análise do comportamento e da psicologia cognitiva, mostrando quais comportamentos precisam ser trabalhados, a fim de que a criança obtenha um desenvolvimento cognitivo e interpessoal adequado.

Nesse texto será tratado um dos elementos principais do PTP e sua importância, as Habilidades Sociais Educativas (HSE) dos pais.

Habilidades sociais (HS) referem-se a um conjunto de componentes comportamentais individuais, que dizem respeito à maneira com que são expressos sentimentos, expectativas, opiniões e atitudes que favorecem a manutenção e o início de uma interação social, e são aprendidas ao longo do desenvolvimento.

São exemplos de HS esperadas para crianças em idade escolar o compartilhamento de brinquedos, cumprimentar, dizer “por favor” e “obrigado”, não falar de boca cheia, pedir desculpas, entre outros. Dessa forma, podemos dizer que HS são um conjunto de comportamentos que favorecem a manutenção e o início de uma interação social.

As Habilidades sociais educativas (HSE), por sua vez, são um conjunto de habilidades sociais direcionados para a promoção e desenvolvimento e da aprendizagem do outro, em situação formal ou informal (Del Prette e Del Prette, 2001), ou seja, são as competências sociais dos pais direcionadas para a educação de seus filhos. A falta de preparo dos pais expressa-se, geralmente, em déficits dessas habilidades sociais requeridas no processo educacional das crianças.

Nesse sentido, para instruir e ensiná-los a desenvolver nas crianças comportamentos adequados e a seguir regras e limites, é utilizada a técnica de Treinamento das HSE dos pais no PTP, onde são trabalhadas práticas parentais positivas. Silva (2000) identificou como HSE cruciais: manter o diálogo, expressar sentimentos de agrado e desagrado, expressar opiniões e solicitar adequadamente a mudança de comportamento, cumprir promessas, concordância do casal quanto à educação do filho e à participação de ambos os progenitores na divisão de tarefas educativas, “dizer não”, “negociar”, “estabelecer regras” e “desculpar-se”.

Déficits na HSE podem influenciar na qualidade da interação entre pais e filhos e interferir no desenvolvimento do repertório comportamental da criança, além de se correlacionar com problemas no desenvolvimento cognitivo e acadêmico. Isso tem sido confirmado por diversos estudos. Por exemplo, pesquisas que mostram que crianças em idade escolar com interação mínima com ambos os pais apresentam desenvolvimento cognitivo menor e mais problemas de comportamento. (Anselmi, Piccinini, Barro, & Lopes, 2004; Stocker, Richmond, Low, Alexander, & Elias, 2003). Quanto à interferência da interação familiar sobre o desempenho acadêmico dos filhos, alguns autores (Hill & Taylor, 2004; Newcombe, 1999) mostram que crianças com maior desempenho acadêmico eram aquelas que possuíam pais envolvidos, afetuosos e verbalmente sensíveis, e evitavam usar o recurso da punição (castigo físico, por exemplo).

Estudos como o de Cia, Pereira, Del Prette & Del Prette, (2006), também mostram resultados que confirmam a importância da realização de programas de modificação do comportamento infantil como o PTP, baseado em habilidades sociais educativas.

É importante dizer ainda que a efetividade das HSE depende do uso apropriado de componentes não verbais (gestos, expressões faciais e corporais) e paralingüísticos (volume e forma da fala, clareza, fluência, ênfase, dentre outros), conforme definidos em Del Prette e Del Prette (2005), pois pequenas alterações na topografia do desempenho de uma HSE podem alterar sua efetividade, por exemplo, entonações diferentes ao fazer uma crítica ou um pedido podem gerar diferentes formas de aceitação e atendimento (entusiasmo, adesão, hesitação), conforme Del Prette e Del Prette (2008).

Sendo assim, trabalhar o desenvolvimento das HSE dos pais é essencial, pois é a partir disso que serão desenvolvidas práticas disciplinares não coercivas, extremamente importantes para o estabelecimento de um bom relacionamento com seus filhos, além de contribuir para o desenvolvimento de HS na criança (relações interpessoais de qualidade na escola, trabalho, relacionamentos e outras interações sociais), e favorecer o desenvolvimento cognitivo e acadêmico.

 

Marina Oliveira

Graduanda em Psicologia e aluna de iniciação científica do LND

 

Referências:

Anselmi, L., Piccinini, C. A., Barros, F. C., & Lopes, R. S. (2004). Psychosocial determinants of behavior problems in Brazilian preschool children. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 45(4), 779-788.

Caballo, V. (1993). Manual de evaluación y entrenamiento de las habilidades sociales. Madrid: Sigilo Veintuino Editores.

Cia, Fabiana, Pereira, Camila de Sousa, Del Prette, Zilda Aparecida Pereira, & Del Prette, Almir. (2006). Habilidades sociais parentais e o relacionamento entre pais e filho. Psicologia em Estudo11(1), 73-81.

Del Prette, A. & Del Prette, Z. A. P. (2001a). Psicologia das relações interpessoais: vivências para o trabalho em grupo. Petrópolis: Vozes.

Del Prette, Zilda Aparecida Pereira, & Del Prette, Almir. (2008). Um sistema de categorias de habilidades sociais educativas. Paidéia (Ribeirão Preto), 18(41), 517-530.

Gomide, P. I. C. (2003). Estilos parentais e comportamento anti-social. Em A. Del Prette & Z. A. P. Del Prette (Orgs.), Habilidades sociais, desenvolvimento e aprendizagem (pp. 21-60). Campinas: Alínea.

Hidalgo, C. & Abarca, N. (1994). Programa de entrenamiento em habilidades sociales. Santiago: Ediciones Universidad Católica de Chile.

Hill, N. E. & Taylor, L. C. (2004). Parental school involvement and children’s academic achievement. Current Directions in Psychological Science, 13(4), 161-164.

Pacheco, Janaína T. B., Teixeira, Marco A. P., & Gomes, William B.. (1999). Estilos parentais e desenvolvimento de habilidades sociais na adolescência. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 15(2), 117-126.

Pinheiro, Maria Isabel Santos, Haase, Vitor Geraldi, Del Prette, Almir, Amarante, Claret Luiz Dias, & Del Prette, Zilda Aparecida Pereira. (2006). Treinamento de habilidades sociais educativas para pais de crianças com problemas de comportamento.Psicologia: Reflexão e Crítica19(3), 407-414.

Roja, R. (1995). Habilidade Sociales: psicoterapia grupal com pacientes esquizofrênicos crônicos. Revista de Psicologia de la PUCP, 8, 63-95.

Silva, A. T. B. (2000). Problemas de comportamento e comportamentos socialmente adequados: Sua relação com as atividades educativas de pais. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-graduação em Educação Especial, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos.

Stocker, C. M., Richmond, M. R., Low, S. M., Alexander, E. R., & Elias, N. M. (2003). Parental hostility and children’s interpretations as mediators. Social Development, 12(2), 149-161.