Diferenças entre a neurociência e a pedagogia acerca do uso dos dedos

Nos dias de hoje, presenciamos diversas discussões sobre a validade e qualidade dos métodos de ensino nas mais diversas áreas do conhecimento. Temos a discussão clássica entre o método global e fônico, quando se trata de alfabetização e, neste debate, diversas evidências favorecem o método fônico. Entretanto, quando o assunto é ensino da matemática, ainda não existe um consenso entre a pedagogia e a neurociência sobre a forma mais eficaz de ensino, como por exemplo o uso dos dedos no aprendizado matemático. O que se pretende, a seguir, não é apresentar uma conclusão final para este debate, mas sim explanar algumas das considerações de cada área. Para prosseguirmos com essa discussão, utilizaremos o artigo de opinião “Effects of finger counting on numerical development – the opposing views of neurocognition and mathematics education” com autoria de Korbinian Moeller, Laura Martignon, Silvia Wessolowski, Joachim Engel e Hans-Christoph Nuerk.

As neurociências vêm desenvolvendo estudos indicando que a utilização da contagem nos dedos é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento de habilidades matemáticas, uma vez  que fornece,  por exemplo, uma percepção multissensorial sobre os números. Essa prática é tão importante que, segundo alguns pesquisadores como Crollen e cols (2011) e Poeck (1964) até mesmo crianças cegas ou com braços amputados a utilizam. Isto pode ser verificado através de estudos com eletroencefalograma (EEG), que nos permite enxergar o padrão de ativação do córtex cerebral e observar que crianças com essas deficiências ativam as mesmas áreas cerebrais de uma pessoa típica.

Ainda na área de observação dos padrões cerebrais, existem estudos que utilizam uma técnica chamada neuroimagem funcional. Esta prática nos permite observar os padrões de ativação cortical de maneira visual, o que se difere do EEG, que apenas apresenta um relatório dos padrões elétricos. Nos estudos de Kaufmann e colaboradores (2008), por exemplo, foi encontrada uma sobreposição das áreas comumente atribuídas à representação numérica e as áreas sabidamente relacionadas aos dedos, durante tarefas de desempenho matemático.

A neurociência defende ainda que o uso dos dedos seria de suma importância por ser o modelo de uma cognição corporificada. Isto significa que a cognição humana é enraizada nos processos sensório-motores. Isso implica que, como foi dito acima, o uso constante do corpo (especificamente os dedos) como estratégia de aprendizado seria um estimulador dos processos mentais e cognitivos. Por exemplo, atividades que incentivem as crianças a usarem os dedos. Isto sugere impactos perceptíveis na vida adulta em situações nas quais o raciocínio lógico-matemático é exigido.

De modo geral, podemos dizer que a neurociência defende a ideia de que devemos encorajar o uso das representações numéricas corporificadas, contagem nos dedos, no aprendizado da matemática. Isso seria benéfico para o desenvolvimento cognitivo e deveria ser ensinado logo no início da jornada escolar.

Por outro lado, temos a visão dos educadores de matemática que não entram em consenso com a visão da neurociência sobre o uso dos dedos. Para eles, de modo geral, esta prática não deve ser encorajada por muito tempo e não está em sintonia com um bom desenvolvimento das habilidades matemáticas ao longo da vida do indivíduo.

Suas principais considerações estão em torno da visão de que contagem nos dedos é uma habilidade primordial e essencial, mas deve ser abandonada depois da alfabetização matemática. O uso excessivo dos dedos é prejudicial para o aprendizado e execução de habilidades matemáticas específicas e ensinadas posteriormente na jornada escolar. As crianças com resultados mais fracos em operações mais complexas como divisão e multiplicação, seriam as que apenas utilizam estratégias de contagem.

contandodedos

Existem também estudos da pedagogia indicando que a contagem aparece como benéfica quando a tarefa está relacionada com decomposição numérica de numerais relativamente pequenos, menores do que 10. Contudo, quando a tarefa apresenta números maiores, o uso dos dedos se apresenta como desfavorável para a execução do que é pedido.

A pedagogia apresenta, ainda, uma sugestão para a educação de crianças com necessidades especiais, mais especificamente a discalculia. Neste caso, o papel do professor é essencial para encorajar a criança, incentivando-a e criando estratégias diversas para o aprendizado. Sobre as formas de ensino dos numerais, a pedagogia sugere que sejam utilizadas estruturas materiais, como blocos ou cubos, para facilitar a compreensão de quantidade. Neste caso, os dedos seriam considerados como essas estruturas, ou seja, podem ser utilizados de maneira prática como objeto facilitador do aprendizado.

Ainda na linha de raciocínio que pretende aconselhar acerca do aprendizado e superação das dificuldades no ensino, levanta-se a importância social do convívio e interesse dos pais. Segundo Mehlhuish e colaboradores (2008), quanto mais as crianças eram acompanhadas e motivadas pelos pais, melhor era seu desempenho em atividades complexas de matemática, além do abandono da prática de contagem.

O que podemos perceber ao final deste levantamento teórico é que a neurociência e a educação estão cientes das práticas de contagem nos dedos, porém, encaram-na com olhos diferentes. Enquanto a primeira a considera uma prática benéfica para o desenvolvimento humano e encoraja a prática como duradoura para a vida, a segunda acredita que a contagem deve ser concebida como uma fase do desenvolvimento e que deve ser deixada para trás com o passar do tempo.

Faz-se necessário ressaltar que as conclusões e as ponderações de cada uma das áreas podem estar intimamente ligadas ao contexto cultural de cada estudo e que seus postulados podem não fazer muito sentido quando tomados literalmente em diferentes sociedades. É preciso dizer também que ambas as áreas possuem limitações no que tange às diferenças individuais e específicas.

Pedro Saulo Rocha Martins

Graduando em Psicologia – Universidade Federal de Minas Gerais

Aluno de Iniciação Científica – LND

Referências:

Crollen,V.,Mahe,R.,Colligon,O.,and Seron,X.(2011).The role of vision in the development of finger-number interactions: finger-counting and finger-monitoring in blind children. J. Exp.Child.Psychol.109, 525–539.

Kaufmann,L.,Vogel,S.E.,Wood,G.,Kremser,C.,Schocke,M.,andZimmerhackl,L.B.(2008).A developmental fMRI study of non symbolic numerical and spatial processing. Cortex 44, 376–385.

Mehlhuish,E.C.,Sylva,K.,Sammons, P.,Siraj-Blatchford,I.,Taggart,B.,Phan,M.B.,and Malin, A. (2008).Preschool influences on mathematics achievement. Science 321, 1161–1162.

Moeller, K., et al. 2014. Effects of finger counting on numerical development the opposing views of neurocognition and mathematics education. In: Frontiers In Psychology.

Poeck,K.(1964).Phantoms following amputation in early childhood and in congenital absence of limbs. Cortex 1, 269–275