Dificuldades de aprendizagem: a ansiedade matemática

O desempenho na matemática é um dos principais fatores para a avaliação das aptidões na área. Segundo Frankenstein (1989) e Hembree (1990), alguns estudos sugerem que, durante o estudo da matemática, as regras inadequadas e autoatribuições negativas exercem papéis relevantes nas respostas emocionais a ela e nas taxas de erros em exercícios relacionados. O conjunto dessas reações emocionais negativas – como afirmações do tipo “nunca vou me dar bem nessa matéria”, “não consigo aprender números”, e outras manifestadas de forma explícita ou implícita – apresentadas pelos alunos com baixo desempenho durante a aprendizagem dos números foi denominada de ansiedade matemática (Ashcraft, 2002; Hembree, 1990).

O transtorno possui causa multifatorial, podendo ter como elementos desencadeadores os professores, métodos de ensino, didática em sala de aula, relação do aluno com o que é apresentado e o que é exigido, entre outros. Ela pode ser descrita como um conjunto de reações emocionais e fisiológicas de um indivíduo que resultam em medo e receio diante de situações que envolvam números, como as próprias aulas de matemática e realização de tarefas referentes a ela. De acordo com Geary (1996), as pessoas que sofrem de ansiedade matemática desenvolvem comportamentos de esquiva e fuga quando se deparam com essa disciplina. Essa disfunção não é inata e o seu desenvolvimento não está relacionado com lesões cerebrais, como a acalculia. Conforme explicado por Gerasimenko (2012), durante as “crises” de estresse a área de maior atividade cerebral são as amígdalas, estrutura considerada como a região das emoções, e o hipocampo, responsável pela consolidação das memórias. Já as áreas encarregadas do processamento numérico e da memória de trabalho não apresentam atividade intensa.

O diagnóstico desse transtorno tem sido alcançado através das escalas tipo Likert, uma escala psicométrica para avaliação quantitativa, que tem como objetivo registrar o nível de conformidade a cada questão apresentada. No Brasil, os estudos a respeito desse transtorno da aprendizagem ainda são escassos. Para as pesquisas realizadas são utilizadas a versão traduzida, adaptada e validada por Brito (1998), o questionário de ansiedade matemática de Thomas e Dowker (2000) – voltado para crianças em idade de escolarização primária – e a Escala de Ansiedade à Matemática – EAM – proposta por Carmo (2008).

 

A Escala de Ansiedade à Matemática é composta por 24 itens, os quais ilustram situações tipicamente vivenciadas por estudantes de Ensino Fundamental e Médio. O aluno é convidado a responder a cada item, escolhendo uma das seguintes alternativas: nenhuma ansiedade; baixa ansiedade; ansiedade moderada; muita ansiedade; alta ansiedade; extrema ansiedade. (Mendes, Carmo, 2011)

 

Apesar dos estudos limitados no Brasil, o Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento (LND) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tem ganhado visibilidade com estudos relacionados à aprendizagem infantil. Em pesquisa realizada por Haase, Costa, Chagas, et. al. (2012), utilizou-se, além de outros métodos, o questionário de ansiedade matemática de Thomas e Dowker (2000). Questionário este composto de 24 questões, as quais se combinam em  quatro subescalas: autopercepção de desempenho, atitudes em relação à matemática, infelicidade relacionada a problemas na matemática e ansiedade relacionada a problemas na matemática (Thomas; Dowker, 2000).

Dentre as estratégias de reversão ou tentativa de minimizar os sintomas provocados por essa ansiedade, Carmo (2011) e Carmo, Cunha & Araújo (2008) apontam três pilares básicos de intervenção: a família, o ambiente escolar e o estudante. As técnicas escolares envolvem a mudança no ambiente de estudo, acompanhamento e metodologias individualizadas para a apresentação do conteúdo e atividades coletivas para a execução dos exercícios e atividades. Entre os comportamentos a serem evitados pelos professores em sala de aula, Tobias (1978) cita: pressionar os alunos para responder rápida e corretamente as questões, estimular competição entre colegas, aplicar quantidade exaustiva de testes e repreender os alunos sobre os conteúdos de suas dúvidas. No âmbito familiar, aconselha-se evitar discursos em que a matemática é apresentada como algo impossível e de compreensão destinada apenas a algumas pessoas ou gêneros. Já a abordagem individual envolve a percepção da pessoa de sua dificuldade, bem como o planejamento das ações a serem tomadas para o cumprimento das tarefas. Para situações mais agudas, a terapia cognitiva comportamental (TCC) é a mais indicada.

As condições que geram ansiedades mais extremas servem como indicadores para a técnica de tratamento a ser adotada a fim de proporcionar uma vida escolar e social mais tranquila e equilibrada para os indivíduos, uma vez que os números estão presentes em praticamente todos os momentos do cotidiano. 

 Larissa Portelote

Graduanda em Psicologia – Universidade Federal de Minas Gerais

Aluna de Estágio Básico – LND

Referências

 

ASHCRAFT, M. H. Math anxiety: personal, educational, and cognitive consequences. Current Directions in Psychological Science.  2002. 11(5), 181-185.

BRITO, M. R. F . Adaptação e validação de uma escala de atitudes em relação à matemática. Zetetike, 1998. 6(9),45-63.

Carmo, J. S. Escala de ansiedade à matemática. Texto não publicado. São Carlos, 2008

CARMO, J. S. Ansiedade à matemática: identificação, descrição operacional e estratégias de intervenção. In F. Capovilla (Org.), Transtornos de aprendizagem: progressos em avaliação e intervenção preventiva e remediativa (pp. 249-255). São Paulo: Memnon, 2011.

CARMO, J. S., CUNHA, L. O., & ARAÚJO, P. V. S.  Analise comportamental da ansiedade à matemática: conceituação e estratégias de intervenção. In W. C. M. P. Silva (Org.), Sobre comportamento e cognição: análise comportamental aplicada (pp. 185-195). Santo André, SP: ESETec. 2008.

FRANKENSTEIN, M. Relearning mathematics: a different third r-radical math(s). 1989. (Vol. 1). Londres: Free Association Books.

GEARY, D. C.. Children’s mathematical development: research and practical applications. Washington: American Psychological Association. 1996.

GERASIMENKO, T. Ansiedade matemática dispara ‘gatilho do medo’ no cérebro e dificulta resolução de problemas. Estadão.  Abril 2012. Disponível em < http://ciencia.estadao.com.br/blogs/ciencia-diaria/ansiedade-matematica-dispara-gatilho-do-medo-no-cerebro-e-dificulta-resolucao-de-problemas/>. Acesso em nov 2014.

HAASE, V. G.; COSTA, A. J.; CHAGAS, P. P.; OLIVEIRA, L. F. S.; MICHELI, L. R.; WOOD, G. Math Self-Assessment, but Not Negative Feelings, Predicts Mathematics Performance of Elementary School Children. Child Development Research. 2012

HEMBREE, R. The nature, effect, and relief of mathematics anxiety. Journal for Research in Mathematics Education. 1990. 21,33-46.

MENDES, A. C; CARMO, J. S. Estudantes com grau extremo de ansiedade à matemática: identificação de casos e implicações educacionais. Psicologia da educação.  n.33 São Paulo dez. 2011.

THOMAS, G; DOWKER, A.  Mathematics anxiety and related factors in young children, Proceedings of the Developmental Section Conference, British Psychological Society, Bristol, UK, 2000.