Cognição Encarnada no III Congresso Mineiro de Neuropsicologia

Uma das atrações do III CMN vai ser a palestra da neuropsicóloga Andressa Moreira Antunes sobre cognição corporificada. A cognição corporificada é uma trend nas ciências cognitivas contemporâneas. Faz parte da tendência de abordar a cognição a partir de uma perspectiva bottom-up, inserindo-a no contexto e/ou fundamentando-a em restrições e oportunidades fornecidas pelo próprio corpo em interação com o ambiente (grounded cognition).

Os exemplos de aplicação da cognição corporificada são inúmeros. Há evidências, p. ex., de que a memória de trabalho verbal se origina de processos sensoriomotores de recitação fonológica, envolvendo circuitos reentrantes entre as áreas de Wernicke e de Broca no hemisfério esquerdo (Hickok, 2009, Wilson, 2002). Conceitos e termos lexicais de diferentes categorias provavelmente se originam de padrões espaço-temporais de ativação nas áreas corticais sensoriais e motoras envolvidas na experiência repetidas com items pertencentes a diferentes categorias (Pulvermüller, 2005, Warrington & Shallice, 1984). Os neurônios em espelho, nas áreas premotoras, tem sido considerados um mecanismo importante ainda que controverso para o desenvolvimento de diversos domínios cognitivos, tais como a linguagem e a teoria da mente (Hickok, 2014).

Um dos exemplos mais notáveis de cognição corporificada é a numerosidade (embodied numerosity, Moeller et al., 2012). Universalmente, crianças e adultos se servem dos dedos para mostrar quantidades (finger montring), contar e realizar operações aritméticas. A contagem nos dedos em crianças pequenas é um importante auxiliar na aprendizagem da matemática. Por outro lado, em crianças maiores e adolescentes a contagem nos dedos é o principal sintoma de discalculia do desenvolvimento.

Diversas são as funções propostas para a contagem dos dedos na aprendizagem a matemática (Crollen, Seron & Noël, 2011a). Os dedos fornecem uma representação icônica dos números, ajudam a monitorar os objetos já contados e ainda não contados, permitem o estabelecimento de correspondências um a um entre os objetos e os numeriais, fomentam a aquisição dos princípios da ordem estável, cardinalidade e do sistema de base 10, além de fornecerem uma base concreta para a realização das operações aritméticas.

A importância dos dedos na aprendizagem da aritmética é ilustrada pelo fato de que as gnosias digitais, ou habilidade de discriminar os dedos, em crianças de escolarização inicial são preditivas do desenvolvimento ulterior da aritmética (Fayol, Barrouillet & Marinthe, 1998, Noël, 2005). Há interesse também em investigar se o treinamento em discriminação e contação nos dedos acelear a aprenzagem da matemática (Baffaluy & Noël, 2008).

Um estudo realizado no LND-UFMG investigou o papel das gnosias digitais comparativamente à memória de trabalho visoespacial na resolução de problemas verbalmente formulados em crianças de idade escolar (Costa et al., 2011). Os resultados mostraram uma associação entre memória de trabalho visoespacial, avaliada pelos cubos de Corsi na ordem inversa, a resolução de problemas aritméticos. Essa associação desapareceu entretanto quando foi introduzido no modelo covariância o desempenho em um teste de gnosia digital. Os resultados sugerem que os dedos podem ser usados como um mecanismos de offloading ou de alivio de sobrecarga da memória de trabalho (Alibali & DiRusso, 1999). Servindo-se do apoio concreto dos dedos, a criança libera recursos de processamento para resolver os problemas propostos.

Atualmente a neuropsicóloga Andressa Moreira Antunes está conduzindo um estudo no LND-UFMG sobre a importância da contagem nos dedos para a aprendizagem da matemática nas duas séries iniciais. O estudo está sendo conduzido simultaneamente em Belo Horizonte e em Aachen na Alemanha, através de uma colaboração com a Dra. Helga Krinzinger. Os objetivos são 1) caracterizar os padrões de contagem e mostragem de números através dos dados nas crianças brasileiras comparativamente às crianças alemãs, 2) examinar a eficiência de processamento das representações numéricas digitais comparativamente às representações não-simbólicas, 3) averiguar o desenvolvimento da contagem nos dedos em relação à aprendizagem inicial da matemática, e 4) verificar os efeitos de um programa de treinamento da contagem nos dedos sobre o desempenho u lterior em aritmética. Além de revisão da literatura, na palestra de Andressa serão apresentados resultados preliminares desse estudo.

Outros estudos indicam que o processamento numérico e os dedos compartilham suas representações neurais. As áreas que processam magnitude e que controlam os movimentos das mãos e dos dedos são ao menos parcialmente superponíveis no sulco intraparietal, um importante centro associativo cotrical posterior (Simon et al., 2002). Em diversos estudos conduzidos por Andres e cols. vide revisão em Andres et al., 2008a) foi possível detectar uma interação entre a realização de operações numéricas e ativação do sistema motor. P. ex., no movimento de agarre com pinça fina de um objeto, a apertura inicial da pinça entre polegar e o indicador é proporcional à magnitude de um rótulo numérico colocado sobre o objeto, independentemente do seu tamanho real (Andres et al., 2008b). Em outro estudado foi observado um aumento da excitabilidade do córtex motor primário em tarefas de contagem (Andres et al., 2007).

Os estudos mencionados ressaltam a importância da mostragem e contagem nos dedos para a aprendizagem da aritmética, a qual constitui um universal cultural. A questão então que se coloca é a da necessidade da contagem nos dedos para a aprendizagem da matemática (Crollen et al., 2011a). A perspectiva da cognição corporificada sugere que a  contagem nos dedos é um processo necessário para a aprendizagem da matemática. Ou seja, que as representações numéricas são construídas de baixo para cima a partir da experiência sensório-motora de usar os dedos para contar, mostrar numerosidades e resolver problemas aritméticos simples.

Uma série de evidências revisadas por Crollen et cols. (2011a) sugere, entretanto, que a contagem nos dedos não seja um sine qua non do desenvolvimento da aritmética. Indivíduos com amelia ou ausência congênita dos membros muitas vezes experimentam a sensação de membro fantasma e há observações, inclusive, da utilização dos dedos fantass fantasmas para a contagem (Poeck, 1964). A observação de contagem nos dedos em indivíduos com amelia de ambos os membros superiores indica que o processo não é fundamentado apenas na experiência sensório-motora, mas que deve haver um componente representacional corporal inato.

O estudo da contagem nos dedos em indivíduos cegos também fornece evidências importantes quanto aos mecanismos neuropsicológicos envolvidos na neuropsicologia da contagem dos dedos e aprendizagem da aritmética (Crollen et al., 2011). Cegos de nascimento contam espontaneamente nos dedos, mas suas práticas de contagem não obedecem aos padrões canônicos de sua cultura e são relativamente transitórias. O estudo da contagem nos dedos em crianças cegas sugere, portanto, que a contagem dedos é um fenômeno espontâneo, cuja ocorrência inicial independe de feedback visual. Entretanto, os padrões não canônicos e a persistência fugaz da contagem nos dedos em crianças cegas, indica que o uso sistemático dos dedos na aritmética depende de feedback sensorial e cultural. Por outro lado, a menor eficiência na contagem nos dedos em indivíduos cegos não os impede de adquirir os conhecimentos e procedimentos aritméticos.

As evidências sugerem, então, que a associação entre contagem/mostragem de números nos dedos e aprendizagem da aritmética é de natureza epigenética. Ou seja, recruta tanto processos de tipo bottom-up e de natureza experiencial,, quanto processos representacionais top-down que podem ser mais dependentes de influências genéticas.

Vitor Geraldi Haase

Prof. Dr. do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais

Coordenador do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento

Referências

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Andres, M., Ostry, D.J., Nicol, F., & Paus, T. (2008b). Time course of number magnitude interference during grasping. Cortex, 44, 414–419.

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Costa, A. J., Lopes-Silva, J. G., Pinheiro-Chagas, P., Krinzinger, H., Lonnemann, J., Willmes, K., Wood, G. & Haase. V. G. (2011). A hand full of numbers: a role for offloading in arithmetics learning. Frontiers in Psychology, 2, 368 (doi: 10.3389/fpsyg.2011.00368).

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