Neuropsicologia e Neuroimagem Funcional: Convergências e Divergências

Este é o título da minha palestra no III Congresso Mineiro de Neuropsicologia, que se realizará na UFMG (Campus Pampulha) entre os dias 14 e 16 de maio de 2015. Saiba mais detalhes sobre o evento clicando aqui. Gostaria de convidar a todos para participar do evento, o qual contará com diversos convidados internacionais e está sendo organizado com muito carinho e empenho.

Na aula vou discutir a relação complementar entre neuropsicologia e neuroimagem funcional quando se trata de validar modelos da arquitetura funcional do cérebro-mente. Vou tomar como caso-exemplo o modelo proposto por Stanislas Dehaene para o processamento numérico. A hipótese é que os números são inicialmente processados em áreas corticais específicas para cada modalidade (numerais verbais, arábicos e representações icônicas de numerosidade, tais como dedos ou conjuntos de objetos). A seguir é acessada uma representação central de magnitude, a qual é aproximada e de natureza supramodal, isto é, independente da notação na qual o número foi apresentado.

A representação semântica de numerosidade ou senso numérico é não-simbólica, ou seja, analógica. As evidências sugerem que os números são representados de forma indexal, como a imagem de uma linha numérica, na qual cada número ocupa, de forma espacialmente orientada, uma determinada posição.

A representação não-simbólica de magnitude numérica tem despertado muito interesse de neuropsicólogos e educadores. Há evidências sugerindo que é importante trabalhar o senso numérico em crianças de idade pré-escolar através de tarefas de estimação aproximada e comparação (sem contar) da magnitude de conjuntos. A capacidade de estimar e comparar de forma rápida e eficiente as magnitudes numéricas é um importante preditor do desempenho futuro em aritmética. Dificuldades com o senso numérico estão implicadas também nas dificuldades de aprendizagem da aritmética. Tarefas envolvendo as habilidades de representação aproximada de magnitude cumprem, portanto, uma função dupla na educação infantil: quando incorporadas ao currículo pré-escolar, favorecem a aprendizagem da matemática e, quando usadas no contexto diagnóstico, permitem identificar crianças sob risco de apresentarem discalculia.

Na palestra, vou revisar evidências obtidas em estudos psicológico-experimentais, modelos computacionais, potenciais evocados, registros neurofisiológicos de células isoladas em macacos e neuroimagem funcional que validam de forma convergente o modelo proposto por Dehaene para o processamento numérico. Também vou revisar evidências das implicações neuropsicológicas do modelo. Foram descritos pacientes adultos com acalculia que exibem padrões muito seletivos de comprometimento no processamento numérico, afetando apenas as representações arábicas, as representações verbais ou o senso numérico.

O mesmo acontece na discalculia do desenvolvimento. A discalculia associada com dislexia compromete principalmente os aspectos da aritmética que são mais dependentes do processamento verbal, principalmente fonológico. Crianças com dislexia freqüentemente têm dificuldades com a automatização das representações simbólicas de magnitude e na transcodificação entre uma forma e outra, bem como na resolução de problemas verbalmente formulados. Em muitas crianças com dislexia o senso numérico é normal. Por outro lado, há outro grupo de crianças com discalculia que apresentam dificuldades com o senso numérico, mas não apresentam dificuldades com os componentes verbais da aritmética.

Do ponto de vista clínico, é muito importante identificar os mecanismos cognitivos subjacentes às dificuldades de aprendizagem da matemática, uma vez que a abordagem educacional e terapêutica difere conforme o caso. Crianças com dificuldades de matemática relacionadas à dislexia podem se beneficiar de procedimentos que lhes facilitem a automatização das associações entre quantidades e seus números. Por outro lado, crianças com déficits no senso numérico precisam trabalhar a habilidade de estimar e discriminar de forma mais eficiente a grandeza de conjuntos de objetos.

Do ponto de vista teórico, vou argumentar quanto à importância de utilizar evidências neuropsicológicas e de neuroimagem de forma complementar. Muitas vezes se escuta que “o localizacionismo caiu”. Não é bem assim. Da mesma forma como não existe neuropsicologia sem localização cerebral das funções, também não existe neuroimagem funcional sem localizacionismo. A grande diferença entre as duas abordagens é que, enquanto a neuroimagem funcional mostra as áreas potencialmente envolvidas em um processo psicológico, apenas a neuropsicologia consegue evidenciar quais áreas são cruciais para um dado processo. A grande limitação da neuropsicologia é o fato de que, por razões éticas óbvias, as lesões e disfunções não podem ser pré-planejadas pelos experimentadores. O tipo, extensão e localização das lesões e disfunções cerebrais em humanos obedece a caprichos da natureza, ou seja, à história natural das doenças. Por outro lado, a neuroimagem funcional ainda é limitada pela baixa resolução temporal espacial. Mas a tecnologia progride numa velocidade alucinante.

Vitor Geraldi Haase

Prof. Dr. do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais

Coordenador do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento

Leituras sugeridas:

Haase, V. G. (2014). Trinta anos de redes neurais e neuroimagem funcional: O que sobrou da neuropsicologia? Boletim da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, acessível em: http://sbnpbrasil.com.br/sms/files/set2014.pdf

Haase, V. G., Pinheiro-Chagas, P., da Mata, F. G., Gonzaga, D. M., Silva, J. B. L, Géo, L. A. & Ferreira, F. O. (2008). Um sistema nervoso conceitual para o diagnóstico neuropsicológico. Contextos Clínicos, 1, 125-138 (http://revistas.unisinos.br/index.php/contextosclinicos/article/view/5485).

Haase, V. G., Júlio-Costa, A., Antunes, A. M., Alves, I. S. (2012). Heterogeneidade cognitiva nas dificuldades de aprendizagem da matemática: uma revisão bibliográfica. Psicologia em Pesquisa (UFJF), 6, 139-150 (http://www.ufjf.br/psicologiaempesquisa/files/2013/02/v6n2a07.pdf).

Lopes-Silva, J. B., Moura, R. J, Wood, G., & Haase, V. G. (2015). Processamento fonológico e desempenho em aritmética: uma revisão da relevância para as dificuldades de aprendizagem. Temas em Psicologia, 23, 157-173 (http://www.researchgate.net/publication/274717423_Processamento_Fonolgico_e_Desempenho_em_Aritmtica_Uma_Reviso_da_Relevncia_para_as_Dificuldades_de_Aprendizagem).