Mapeando as Emoções no Cérebro: um Modelo de Cinco Dimensões

A evolução e as correlações anátomo-clínicas para a percepção, experiência e expressão emocionais e sua relevância motivacional e psicoeducacional constituirão o foco do curso de férias sobre “Neuropsicologia das emoções: implicações educacionais”, de 13 a 17 de julho de 2015 na FAFICH – UFMG. Clique aqui para saber mais e fazer sua inscrição.

A análise das correlações estrutura-função das emoções se norteará por um modelo de localização baseado em três eixos ou cinco dimensões (vide mais detalhes em Haase et al., 2008 e Haase et al., 2010 – ambos disponíveis para download). Basicamente, o argumento é que o diagnóstico topográfico em neuropsicologia depende de um “sistema nervoso conceitual” (Hebb, 1955). Ou seja, de um modelo da estrutura funcional do cérebro. A complexidade das correlações estrutura-função (van Essen, 2009) pode ser reduzida a um sistema de três eixos, levando em consideração a geometria do cérebro e a sua origem filo e ontogenética. No eixo ântero-posterior, são implementadas as funções executivas no pólo anterior e as funções perceptuais e representacionais no pólo posterior. No eixo látero-lateral podem ser diferenciadas as funções analíticas do hemisfério esquerdo e as funções holísticas do hemisfério direito. Finalmente, no eixo vertical são diferenciadas as patologias corticais e as patologias subcorticais (causadas por comprometimentos dos sistemas de projeção difusa ascendente, dos núcleos da base e da substância branca).

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A figura que ilustra esse post mostra o sistema de três eixos proposto por Talairach e Tournoux para representar as localizações cerebrais em um espaço definido pelas coordenadas cartesianas. O espaço de Talairach é apenas uma das alternativas tecnológicas disponíveis para formalizar a localização cerebral na estereotaxia e ressonância magnética. O diagnóstico de localização nos três eixos cartesianos tem uma longa tradição em neurologia e neuropsicologia (Luria, 1980). Além da distinção entre o hemisfério esquerdo e o direito, Luria chamou atenção para a separação entre o sistema de projeção ascendente (primeira unidade funcional) e os sistemas corticais posterior (segunda unidade funcional) e anterior (terceira unidade funcional).

Contemporaneamente o sistema de três eixos foi refinado através de duas dimensões adicionais. A dimensão ventral-dorsal contempla, no pólo hemisférico posterior, a distinção entre sistemas ventrais voltados para o processamento da identidade dos objetos/eventos e sistemas dorsais encarregados da localização dos objetos/eventos em um referencial espaço-temporal (Mishkin et al., 1983, Rizzolatti & Matteli, 2003). A quinta dimensão recentemente descoberta discrimina as regiões mediais e laterais dos hemisférios cerebrais. Os estudos de neuroimagem funcional indicam que as áreas corticais hemisféricas laterais são ativadas quando a atenção se volta para os objetos físicos e para o ambiente externo. As áreas hemisféricas mediais, por outro lado, são ativadas em tarefas que requerem um foco atencional interior, no self e nas interações sociais (Lieberman, 2007). As áreas mediais dos hemisférios cerebrais, principalmente o cíngulo anterior e o precuneus, fazem parte do padrão default de ativação cerebral, o qual é relevante para a capacidade de insight (Andrews-Hanna et al., 2014, Gusnard & Raichle, 2001).

A oposição entre sistemas ventrais e dorsais também se aplica ao pólo hemisférico anterior, sendo relevante para o comportamento emocional e transtornos psiquiátricos (Giaccio, 2006). Segundo Sanides (1969), o neocórtex cerebral se origina de dois meios primitivos, um sistema paleocortical com epicentro na amígdala e outro arquicortical com epicentro no hipocampo. Análises teóricas conduzidas por Tucker e colaboradores sugerem que os dois sitemas, amigdaliano-ventral e hipocampal-dorsal podem estar associados a distintos padrões funcionais e disfuncionais com relevância para a psiquiatria (Luu & Tucker, 1998, Tops et al., 2014, Tucker  et al., 1995).

O sistema ventral, focalizado na amígdala, tem origem paleocortical, é lateralizado para a esquerda, modulado pela dopamina e funciona principalmente através de feedback (Tucker et al., 1995). De outra parte, o sistema dorsal, centrado no hipocampo, tem origem arquicortical, é lateralizado para a direita, modulado pela noradrenalina e funciona basicamente por feedforward. O sistema ventral é adaptado para funcionar de modo contínuo, reativo às contingências enquanto o sistema dorsal adaptou-se para funcionar de modo proativo, antecipando contexto e indicando necessidade de mudar de estratégia. Segundo essa perspectiva o córtex cingular anterior, que tem origem embrionária, mista, constitui uma importante instância regulatória, monitorizando os padrões de atividade, detectando e corrigindo erros, bem como auxiliando na seleção da melhor estratégia de enfrentamento (Giaccio, 2006). As estratégias de coping instrumental, focado no problema, dependem de conexões das áreas dorsolaterais do córtex pré-frontal com a substância cinzenta periaquedutal (Keay & Bandler, 2001). Por outro lado, as conexões entre as áreas pré-frontais ventromediais e a substância cinzenta periaquedutal desempenham um papel importante no coping paliativo ou focado nas emoções.

A relevância psicopatológica da dupla origem embrionária/evolutiva e os padrões geométricos diferenciais do cérebro, principalmente do sistema límbico e do prosencéfalo basal, tem sido explorada por vários teóricos contemporâneos (Ernst, 2012, Ernst et al., 2005, Giaccio, 2006, Haase, 2009, Richards et al., 2012). O chamado modelo triádico do comportamento motivado tem sido utilizado para explicar os comportamentos de risco na adolescência. Segundo o modelo triádico, o comportamento motivado depende do equilíbrio funcional entre três instâncias: 1) a amígdala, que implementa comportamentos de evitação, 2) o estriado ventral, sensível à saliência da recompensa, mediando comportamentos de exploração e aproximação, e 3) o córtex pré-frontal ventromedial que antecipa as conseqüências do comportamento e, juntamente com o córtex pré-frontal médio-dorsal, atua como instância decisória. Segundo esse modelo, assimetrias na maturação do sistema dopaminérgico podem levar a um desequilíbrio entre sistemas dorsais (dopaminérgico mesocortical) responsáveis pela cognição e sistemas ventrais (dopaminérgico límbico) envolvidos no comportamento apetitivo.

O modelo triádico nos ajuda, portanto, a compreender a vulnerabilidade adolescente aos comportamentos de risco, os quais podem ter conseqüências a longo prazo para a saúde física e mental (Haase, 2009). De acordo com o modelo triádico, o desequilíbrio relativo entre os sistemas dopaminérgicos mesolímbico e mesocortical acentua as motivações de aproximação e exploração do ambiente na adolescência (Somerville et al., 2010). Uma versão do modelo triádico, designando a ínsula de Reil como lócus dos comportamentos apetitivos, foi adaptada para explicar a adição a drogas (Noël et al., 2013).

A ênfase nas motivações apetitivas em detrimento das aversivas é adaptativa na adolescência. A tarefa desenvolvimental primordial da adolescência é a construção da própria identidade, a desvinculação da família de origem, a adoção de novos papéis sociais e a construção de uma nova família. Tudo isso exige desprendimento, independência de pensamento e ação, experimentação e exploração do ambiente. Mas ao mesmo tempo tem um lado sombrio, representando um risco para o desenvolvimento futuro (Haase, 2009). Segundo um velho adágio médico, morre-se na velhice dos maus hábitos adquiridos na mocidade.

Os progressos mencionados na neuroanatomia (Heimer et al. 2007, Sanides, 1969), neuroimagem funcional (Somerville et al., 2010), correlações anátomo-clinicas (Noël et al., 2013) e análises teóricas (Tucker et al., 1995, Tops et al., 2014) contribuíram para uma nova compreensão das bases neurobiológicas dos mecanismos emocionais e motivacionais. As quais têm importantes implicações educacionais. A principal delas é que as crianças e adolescentes necessitam de “adrenalina” (Haase, 2009).

A escola precisa ser divertida, estimulante e desafiadora para os alunos. Essa é a missão impossível das professoras. Como motivar as crianças e jovens para adquirir ferramentas cognitivas como a lecto-escrita e a aritmética, que são evoluções culturais recentes para as quais o seu sistema motivacional não está intrinsecamente voltado? Segundo Geary (2005) a motivação para o estudo é indireta, mediada por mecanismos de auto-regulação. Não existe motivação intrínseca para aprender na escola. A motivação para a escola precisa ser construída.

O estudo das correlações anátomo-funcionais dos sistemas emocionais/motivacionais não ensina o caminho das pedras, ou seja, como motivar os alunos. Mas a neurobiologia e neuropsicologia ajudam muito a compreender o dilema dos jovens, na encruzilhada entre a busca de sensações e o bem-estar futuro. A construção de motivações indiretas para o estudo, mediadas por auto-controle, precisa ser fundamentada em conhecimentos derivados da psicologia cognitiva e comportamental, tais como educação não-coerciva, reforçamento, aprendizagem sem erro, auto-eficácia, auto-instrução, auto-controle etc.

Um sistema educacional que se dá ao luxo de ignorar os importantes avanços científicos ocorridos nos últimos 50 anos nas ciências do comportamento, cognição e cérebro está fadado ao mais retumbante fracasso. Precisamos aprender a fundamentar as intervenções educacionais nas melhores evidências empíricas disponíveis. Hoje em dia, essas evidências vêm das neurociências e da psicologia cognitiva e comportamental. Wallon, Vygotsky e Piaget são autores de uma imensa importância histórica na educação e na psicologia do desenvolvimento. Só que, desde as priscas eras em que esses autores floresceram, o conhecimento avançou por outros rumos. Precisamos correr atrás do prejuízo se quisermos resolver as nossas gravíssimas deficiências educacionais.

Vitor Geraldi Haase

Prof. Dr. do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais

Coordenador do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento

Referências

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