Processamento de Informação Socioemocional: Qual é a utilidade dos modelos de processamento de informação na compreensão dos mecanismos emocionais e sua disfunção nas doenças neuropsiquiátricas?

Essa questão será discutida no curso de férias “Neuropsicologia das emoções: implicações educacionais”, que ocorrerá de 13 a 17 de julho de 2015 na FAFICH – UFMG. Para obter mais informações e inscrever-se, clique aqui.

Os modelos de processamento de informação tiveram e têm um papel enorme no avanço da psicologia e neuropsicologia. Tudo começou na década de 1950, quando os psicólogos tentaram aplicar diretamente a teoria da informação ao estudo do comportamento. Um exemplo de tentativa direta de aplicação da teoria da informação ao comportamento humano é a chamada lei de Hick (Shallice & Cooper, 2011). Segundo a equação de Hick, em um paradigma de tempo de escolha de reação, o tempo de reação é igual ao logaritmo natural do número de opções mais uma: TR = log(n+1). Os psicólogos logo descobriram que a equação de Hick só funcionava na primeira sessão experimental, quando os participantes ainda não tinham experiência com a tarefa. A experiência com o paradigma bagunçava toda a equação.

As diversas tentativas de aplicação direta da teoria da informação foram frustradas basicamente porque as pessoas aprendem. O comportamento humano é plástico, dotado de um enorme dinamismo. Uma alternativa que surgiu então para inspirar e orientar a pesquisa em psicologia experimental pelos avanços ocorridos na teoria da informação e ciência da computação foram os modelos de processamento de informação.

Processamento de informação e dissociações duplas

Um modelo de processamento de informação é uma técnica de modelagem da arquitetura mental que se baseia em uma analogia com um computador digital (Shallice, 1988, Shallice & Cooper, 2011). O teórico do processamento de informação se coloca a pergunta: se a mente-cérebro fosse um sistema computacional, como ela precisaria ser estruturada para implementar um determinado processo cognitivo? A seguir, o psicólogo cognitivo constrói um modelo do processo cognitivo que deseja investigar, uma arquitetura cognitiva. A arquitetura cognitiva identifica os componentes mínimos de um sistema cognitivo, necessários e suficientes para uma dada função. Geralmente, os modelos de processamento de informação são operacionalizados sob a forma de diagramas de caixas e setas, nos quais as caixas constituem formas de representação mental ou subsistemas modularmente organizados e as setas representam operações. Os modelos de processamento de informação não são descritos no nível funcional, não entrando nos detalhes da implementação computacional (software) ou neural/robótica (hardware).

Os modelos de processamento de informação podem ser testados através de técnicas psicológico-experimentais ou neuropsicológicas. O padrão ouro de evidência é uma dupla dissociação. Para caracterizar uma dupla dissociação em psicologia experimental são analisados dois processos cognitivos e duas variáveis independentes. Uma dupla dissociação é estabelecida quando a manipulação experimental A’ afeta o processo cognitivo A, mas não afeta o processo cognitivo B e, inversamente, o processo cognitivo B é afetado pela manipulação experimental B’, mas não pela manipulação experimental A’. Esta situação corresponde ao que Sternberg (2001) denominou de modificabilidade separada.

Um exemplo clássico de dupla dissociação experimental vem da pesquisa sobre memória. As manipulações fonológicas dos estímulos, tais como similaridade, complexidade silábica, número de sílabas etc., afetam a memória fonológica de curto prazo mas não afetam a memória de longo prazo semântico-verbal. Por outro lado, a memória de longo prazo verbal é afetada por manipulações semânticas, tais como a categorização, mas não por manipulações fonológicas. Estes resultados sugerem que as memórias verbais de curto e de longo prazo constituem dois sistemas cognitivos distintos, funcionando a primeira com base em um código fonológico e fundamentando-se a segunda em um código semântico.

A modularidade ou separabilidade parcial dos sistemas cognitivos pode ser investigada também através de duplas dissociações observadas em pacientes (Shallice, 1988, Shallice & Cooper, 211). Uma dupla dissociação em neuropsicologia corresponde àquela situação em que um paciente com a lesão A tem o processo cognitivo A’ comprometido e o processo B’ preservado, enquanto um paciente com uma lesão B, apresenta o quadro inverso de comprometimento da função B’ e preservação de A’.

Uma dupla dissociação neuropsicológica é também observada no caso da memória verbal de curto e de longo prazo. Após lesões do giro angular esquerdo é comprometido o desempenho em testes de memória fonológica de curto prazo, tais como o digit span, mas o desempenho em tarefas de nomeação ou categorização semântica é preservada Por outro lado, pacientes com lesões do neocórtex temporal, principalmente à esquerda apresentam déficits nas tarefas semânticas e têm um desempenho preservado no digit span.

As duplas dissociações constituem o padrão ouro de evidência em psicologia cognitiva e neuropsicologia cognitiva (Shallice, 1988, Shallice & Cooper, 2011, Sternberg, 2001). Os modelos de processamento de informação auxiliam no desenvolvimento das tarefas cognitivas empregadas nos experimentos, bem como na análise dos padrões de funções ou componentes comprometidos ou preservados. Os modelos de processamento de informação contribuem também para uma localização mais precisa dos processos cognitivos no cérebro. Um dos desafios de pesquisa é delinear tarefas simples e que sejam pouco contaminadas pelo fator g da inteligência, permitindo localizações mais precisas e circunscritas de processos cognitivos elementares. Idealmente, essas tarefas devem permitir insights quanto aos mecanismos computacionais envolvidos. É importante ressaltar, entretanto, que essa lógica só pode ser usada para falsificar, jamais para validar modelos. Um caso inconsistente com a teoria destrói o modelo. Um caso ou dupla dissociação consistente apenas reforça um dado modelo, mas não exclui explicações alternativas. A validação de modelos é uma missão bem mais complexa, dependendo da integração convergente de evidências oriundas de múltiplas fontes, tais como psicologia, neuropsicologia, neuroimagem, psicobiologia etc.

Será que esta lógica do processamento de informação se aplica também ao domínio emocional? A resposta é claramente afirmativa. Um sonoro SIM. A integração de modelos de processamento de informação, neuropsicologia e neuroimagem no estudo do comportamento socioemocional originou um campo novo de investigação, a neurociência social e afetiva (Haase, 2009, Haase et al., 2009a,b).

A aplicação da teoria do processamento de informação ao comportamento emocional será discutida no curso de férias “Neuropsicologia das emoções: implicações educacionais” (mais informações) à luz de dois modelos oriundos da psicopatologia (Crick & Dodge, 1994, 1993) e da neuropsicologia (Heilman et al., 2000, 2013).

Processamento de informação e psicopatologia do desenvolvimento

Dodge (1993, vide também Crick & Dodge, 1994) propôs que, como resultado das influências genéticas e da experiência de vida, principalmente na primeira infância, o indivíduo desenvolve esquemas cognitivos. Um esquema é uma estrutura cognitiva complexa, compreendendo aspectos episódicos, semânticos (incluindo afetos) e procedimentais, que resulta da experiência repetida do indivíduo com um determinado evento-situação (Marshall, 1995). Os esquemas são ativados sempre que o indivíduo se defronta com determinadas situações recorrentes e com elementos em comum, enviesando o processamento de informação.

Dois esquemas principais têm sido investigados na psicopatologia do desenvolvimento, um esquema internalizante, subjacente aos comportamentos anti-sociais, e um esquema internalizante, subjacente aos comportamentos depressivos (Dodge, 1993). Os esquemas enviesam o processamento de informação, fazendo com que o indivíduo preste preferencialmente atenção a determinados estímulos (codificação), atribua determinados significados à situação (representação mental), acesse um repertório de respostas, avalie e implemente as respostas.

As diversas etapas no processamento de informação socioemocional são ilustradas na Figura e serão exemplificadas a seguir. Suponhamos uma situação social potencialmente ambígua, a qual pode se constituir em uma fonte de estresse ou em uma oportunidade de crescimento. Alguns desafios enfrentados pelas crianças em idade escolar e adolescentes ilustram estas situações, tais como quando o jovem é chamado à frente pela professora para demonstrar um exercício; o menino se levanta para ir ao banheiro, esbarra e derruba o material do colega, sendo xingado; a criança é nova na escola, quer se integrar em um grupinho, mas leva um gelo; o menino aborda uma menina mas leva um fora etc. etc. Como as crianças agressivas ou depressivas tendem a lidar com estas situações?

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Figura – Modelo de processamento socioemocional (cf. Dodge, 1993)

Uma constituição genética caracterizada, p. ex., por baixo nível de atividade da enzima MAOa (Caspi et al., 2002) ou o alelo val158val da enzima COMT (Dickinson & Elvevag, 2009, Nobile et al., 2010) se associa com risco de comportamento anti-social e impulsividade caso uma criança do sexo masculino seja submetida a experiências adversas na primeira infância, tais como negligência, abuso, violência doméstica, modelo paterno agressivo etc. Sob essas circunstâncias, o menino desenvolve um esquema cognitivo externalizante. Isto é, ele tende a atribuir as dificuldades a fatores externos hostis. Face a situações ambíguas, p. ex., o menino tende a prestar mais atenção em pistas agressivas (codificação), atribui intenções hostis ao outro (representação mental), acessa menos respostas de um modo geral e mais respostas agressivas do que prossociais, valoriza mais as respostas agressivas considerando-as aceitáveis, ao mesmo tempo em que não tem experiência prévia com a implementação de respostas prossociais.

O esquema internalizante ocorre mais em meninas e também resulta da interação de fatores genéticos (p. ex., alelo de cadeia curta do gene da proteína transportadora de serotonina, Caspi et al., 2003) e experienciais (adversidade psicossocial na primeira infância, disciplina rígida e inconsistente, modelos maternos depressivos etc.). A menina tende então a atribuir o sucesso a causas externas e o fracasso a causas internas estáveis.

Frente a situações sociais ambíguas, uma menina com esquema internalizante, presta mais atenção a pistas relacionadas com insucesso, fracasso (codificação), faz atribuições internalizantes (representação mental), acessa menos respostas de um modo geral e, especificamente menos respostas prossociais e mais respostas de desamparo, além de ter menos experiência prévia com respostas prossociais.

No modelo descrito acima de psicopatologia internalizante e externalizante, as influências genéticas constituem moderadores e os esquemas cognitivos mediadores entre as experiências iniciais de vida e os desfechos psicopatológicos (Haase, 2009). Mas, além da psicopatologia do desenvolvimento, os modelos de processamento de informação também são úteis no estudo das disfunções emocionais decorrentes de doenças neurológicas.

Processamento de informação e disfunções emocionais nas doenças neuropsiquiátricas

As disfunções emocionais decorrentes de doenças psiquiátricas e neurológicas (focais ou difusas) podem ser analisadas em termos de um modelo muito simplesinho de processamento de informação, compreendendo percepção, experiência e expressão.

Percepção emocional: As disfunções da percepção emocional já foram ilustradas através dos vieses de processamento de informação presentes nos transtornos internalizantes e externalizantes (Dodge, 1993). Meninos com um esquema hostil de mundo tornam-se hipervigilantes em relação a possíveis ameaças externas à integridade do self. Meninas com esquemas internalizantes apresentam um viés para perceber indícios de fracasso ou ameaças internas à integridade do self.

A prosódia consiste nos aspectos paralingüísticos da comunicação, principalmente a ênfase e entonação, que transmitem a informação emocional (Moore & Puri, 2012). A percepção prosódica depende da integridade funcional de áreas posteriores do hemisfério direito (Ross & Monnot, 2008). Pacientes com lesões posteriores à direita apresentam uma aprosodia receptiva.

Os delírios constituem também uma condição em que ocorrem disfunções na percepção emocional. Na síndrome de Capgras, p. ex., o indivíduo reconhece visualmente a identidade das pessoas e objetos familiares, os quais são, entretanto, desprovidos da sua conotação afetiva (Moore & Puri, 2012). O fato de que a experiência afetiva é preservada quando os estímulos são apresentados na modalidade auditiva, p. ex., falando ao telefone, indicam que se trata de uma disfunção da percepção visual emocional e não da experiência emocional. A síndrome de Capgras pode ser interpretada como uma dissociação entre mecanismos cognitivos/explícitos do reconhecimento visual preservados na presença de comprometimento dos mecanismos afetivos/implícitos do reconhecimento. Apesar de reconhecerem cognitivamente uma pessoa familiar, pacientes com síndrome de Capgras não apresentam as reações psicogalvânicas correspondentes (Hadyn & Lewis, 2001). O inverso pode ocorrer na prosopagnosia (Bauer & Verfallie, 1988). O indivíduo não reconhece cognitivamente a pessoa, mas muitas vezes apresenta alterações na resistência elétrica da pele indicativas de um reconhecimento implícito, afetivo.

Os déficits na teoria da mente ilustram outra situação patológica na qual a percepção emocional pode estar perturbada. O termo teoria da mente se refere à capacidade que as pessoas exibem de “ler” a mente alheia. Ou seja, de entender quais são os desejos, emoções e sentimentos experienciados por outras pessoas, ou o conhecimento do qual elas dispõem. As habilidades de teoria da mente podem ser subdividas em cognitivas, relacionadas com a percepção do conhecimento disponível para o outro, ou afetiva, compreendendo o reconhecimento dos e empatia com os estados mentais alheios (Abu-Ackel & Shamay-Tsury, 2011). Dentre outras estruturas, a teoria da mente cognitiva depende da integridade funcional do córtex pré-frontal dorsolateral. Por outro lado, a empatia depende do cortex pré-frontal ventromedial e do giro do cíngulo.

Rogers e cols. (2006) propuseram que uma dupla-dissociação quanto à teoria da mente poder ser caracterizada no caso da psicopatia e do autismo. Psicopatas dispõem de uma teoria da mente cognitiva. Eles compreendem o sofrimento que eventualmente causarão nas outras pessoas através do seu comportamento. A disfunção perceptual que ocorre no psicopata é a falta de empatia ou teoria da mente emocional. A situação no autismo é distinta. A forma mais comprometida de teoria da mente no autismo é a cognitiva, ilustrada pela dificuldade em compreender a perspectiva do outro bem como pela dificuldade de distinguir e alternar entre a própria perspectiva e o ponto de vista do outro. A empatia pode estar comprometida em graus variáveis no autismo. Freqüentemente está preservada de modo até surpreendente.

Experiência emocional: A disforia ou sentimento de sofrimento e dor psicológica é um elemento comum da vivência emocional dos diversos transtornos emocionais. Do ponto de vista anatômico, a disforia se associa com alterações dos níveis de atividade da porção subgenicular do giro do cíngulo (Drevets et al., 2008). A diminuição da atividade subgenicular é observada em pacientes hipomaníacos e um aumento da atividade em pacientes deprimidos e ansiosos.

Lesões anteriores do hemisfério esquerdo se associam freqüentemente com sentimentos de depressão enquanto lesões anteriores do hemisfério direito causam desregulação emocional e, por vezes, comportamento hipomaníaco (Cummings, 1997, Robinson & Manes, 2000). Pacientes com lesões do hemisfério direito podem apresentar labilidade emocional, ou seja, uma susceptibilidade exagerada a alternância de estados emocionais, os quais podem ser desencadeados por estímulos de pouca intensidade (Cummings, 2012, Moore & Puri, 2012).

Psicopatas são indivíduos que apresentam um déficit nas experiências de medo, as quais se devem, muito provavelmente, a déficits nos mecanismos de condicionamento implementados pela amígdala (Blair et al., 2005, Lykken, 1957).

A dificuldade em reconhecer e/ou nomear os próprios estados emocionais se chama de alexitimia e se associa com disfunções do corpo caloso e do córtex frontal direito, principalmente das porções anteriores do giro do cíngulo (Larsen et al., 2003).

Pacientes com lesões parietais à direita muitas vezes apresentam um quadro de indiferença emocional (Schutz, 2005). A indiferença emocional ou apatia é mais freqüentemente observada após lesões hemisféricas anteriores (Moore & Puri, 2012). O afeto superficial ou embotado é uma característica de diversos transtornos psiquiátricos, principalmente esquizofrenia (Moore & Puri, 2012). A apatia precisa ser diferenciada da abulia. A característica principal da apatia é a indiferença. Na abulia, por outro lado, ocorre um “branco” mental (Moore & Puri, 2012). A abulia é causada por lesões ou comprometimentos das estruturas mediais do lobo frontal, no território da artéria cerebral anterior.

A capacidade de insight é um dos componentes da experiência emocional universalmente comprometido nas doenças psiquiátricas. O termo insight é difícil de definir, mas pode se referir à capacidade que o indivíduo tem de identificar e refletir sobre seus próprios sentimentos e sobre o contexto em que se encontra. Recentemente, as bases neurobiológicas do insight começaram a ser desvendadas através da descoberta do modo default de funcionamento cerebral (Gusnard & Raichle, 2001). Quando o indivíduo volta sua atenção para o ambiente externo são ativadas principalmente áreas da superfície cortical lateral (Lieberman, 2007). Por outro lado, quando o indivíduo volta sua atenção para o self ou para as relações interpessoais, ativam-se áreas mediais, tais como o giro do cíngulo anterior e posterior, além de outras estruturas como a ínsula e algumas áreas temporais posteriores. A descoberta dos padrões de ativação cerebral voltado para o self e para as relações interpessoais permitiu a caracterização de uma rede neuronal que se desenvolve com o amadurecimento do indivíduo e que é comprometida, em maior ou menor grau, em todas as patologias neuropsiquiátricas (Broyd et al., 2009).

Expressão emocional: Muitos pacientes com lesões anteriores do hemisfério direito e dos circuitos relacionados apresentam uma fala monótona, sem entonação e da qual não se pode depreender o estado emocional do falante. Este quadro constitui uma aprosodia de expressão (Ross & Monnot, 2008). Pacientes com doença de Parkinson apresentam hipomimia, a qual também dificulta a expressão emocional facial (Moore & Puri, 2012). A hipomimia associada à hipocinesia e postura encurvada podem transmitir a impressão de que o paciente está deprimido, sem que isso necessariamente corresponda ao estado emocional do paciente.

Pacientes com lesões bilaterais dos tratos córtico-subcorticais freqüentemente apresentam um quadro de alteração entre riso e choro imotivados, ou seja, acessos súbitos de riso que freqüentemente evoluem para choro convulsivo, os quais são precipitados por estímulos irrelevantes e não se acompanham de sentimentos congruentes (Moore & Puri, 2012). O riso e choro patológicos são muitas vezes denominados de afeto pseudobulbar. Mas essa terminologia não é adequada, uma vez que o comportamento observado não se associa de forma consistente à experiência emocional. O riso e choro patológico precisa ser diferenciado da labilidade emocional. Acessos de riso, o chamado fou rire prodromique, foram descritos como pródromos de acidentes vasculares cerebrais no tronco (Moore & Puri, 2012).

Conclusão

As evidências revisadas indicam que os modelos de processamento de informação e a lógica da dupla dissociação podem ser aplicadas com sucesso tanto à psicopatologia do desenvolvimento (Williams et al., 1997/2000) quanto à neuropsiquiatria (Heilman et al.,2000, 2013, Moore & Puri, 2012, Robinson & Manes, 2000). Em alguns casos, como as aprosodias de recepção e expressão, a aplicação do modelo pode ser mais simples e direta.  O riso e o choro patológico constituem um exemplo de comprometimento da expressão emocional, sem alterações congruentes da experiência. Em outras circunstâncias, como p. ex., na alexitimia e teoria da mente, pode haver uma certa sobreposição de mecanismos entre dificuldades perceptuais e experienciais, sugerindo que o problema pode ser mais complexo. Algumas condições, tais como a psicopatia e o autismo podem envolver disfunção de diversos mecanismos cognitivos organizados em múltiplos níveis. Entretanto, mesmo nas situações mais complexas, quando não é possível construir um modelo simples e coerente, a teoria do processamento pode ser útil, uma vez que auxilia na identificação dos componentes candidatos a participarem da arquitetura cognitiva subjacente ao processo estudado.

Vitor Geraldi Haase
Professor titular
Departamento de Psicologia
FAFICH – UFMG

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