Efeito Pigmalião: as expectativas da professora e o desempenho dos alunos

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Nas suas metamorfoses, Ovídio contou a lenda de Pigmalião. Existem várias versões da história. À medida que o conto foi sendo contado, pontos foram sendo acrescentados. Vou contar a minha versão. Pigmalião era o rei de Creta. Dizem que era um grande escultor. Mas tão bom mesmo, que fez uma estátua perfeita de uma mulher. A estátua era tão perfeita que Pigmalião se apaixonou por ela. Ficou enfatuado pela estátua. Embevecido. Não fazia mais nada. Não comia, não bebia, mal dormia. Só ficava curtindo a estátua. Vênus ficou com dó dele e deu vida à estátua. Ela se transformou em uma linda mulher, que recebeu o nome de Galatéia. Os dois se apaixonaram mais ainda, casaram-se e tiveram filhos. Poderiam ter vivido felizes para sempre não fosse a soberba. Pigmalião começou a se gabar. Dizia que ele era o melhor escultor do mundo, que Zeus não estava com nada etc. etc. Ao ver aquilo, o Rei dos Deuses se enfureceu e fulminou Pigmalião com um raio.

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O termo Efeito Pigmalião se refere ao efeito que as expectativas da professora têm sobre o desempenho escolar do aluno. O termo se popularizou a partir de um experimento realizado nos anos 1960 por Robert Rosenthal, um psicólogo experimental de Harvard, e Lenore Jacobsen, uma diretora de escola na Califórnia. No início do ano letivo, Rosenthal e Jacobsen realizaram testes de inteligência em crianças de 1º a 6º anos de uma escola. As professoras não tiveram acesso aos resultados dos testes de inteligência. Mas os autores sortearam uma meia dúzia de crianças por turma, independentemente do seu QI, e disseram para as professoras que essas crianças eram as mais talentosas.

O resultado foi que as professoras deram mais atenção às crianças que elas acreditavam ter um melhor potencial. Eram mais gentis, davam mais atenção, explicavam mais, chamavam mais ao quadro para resolver problemas, reforçavam mais o comportamento de estudar etc. etc. Ao final do ano, as crianças supostamente identificadas como mais talentosas, tiveram um crescimento maior nos seus testes de QI, independentemente da inteligência inicial.

O efeito Pigmalião foi replicado com maior ou menor sucesso em centenas de experimentos. As magnitudes de efeito podem ser moderadas, em torno de 0,5 desvios-padrão. Os resultados são melhores com medidas processuais (engajamento da professora com o aluno) do que com medidas de desfechos (testes de inteligência e/ou de desempenho escolar). O Efeito Pigmalião somente é observado quando a professora ainda não conhece bem o aluno. Ou seja, no início do ano letivo, quando a professora ainda não fez seu próprio juízo sobre o potencial dos alunos.

Atualmente, há um interesse muito grande sobre intervenções cognitivas, treinamentos de memória de trabalho etc. etc. para aumentar a inteligência. Tudo isso envolve muito wishful thinking. A inteligência é uma característica individual que pode ser otimizada até um certo ponto, mas certamente sua plasticidade tem limites. Pode até ser que as professoras não estejam com essa bola toda, e não tenham o poder de propiciar ganhos em inteligência acima e além do QI inicial dos alunos apenas em função da inteligência. Mas os efeitos da expectativas da professora sobre o seu comportamento e envolvimento com os alunos são muito consistentes e robustos.

Conhecendo o Efeito Pigmalião as professoras podem avaliar suas próprias expectativas em relação ao desempenho do aluno. A identificação das expectativas da professora é o primeiro passo para modificá-las. Modificar de forma estratégica suas expectativas em relação ao aluno está ao alcance das professoras e exerce efeitos benéficos sobre a motivação e a aprendizagem, independentemente de ganhos adicionais de QI.

Conhecer o Efeito Pigmalião é importante também para não incorrer no seu inverso, o efeito Golem. O termo Golem se refere ao folclore judaico, remontando pelo menos ao rabino Judá Loew bem Betzalel, que viveu em Praga no Século XVI. O Golem se refere a uma criatura monstruosa, demoníaca, metade humana e metade artificial, a qual deu origem à história do Frankenstein de Mary Shelley.

O termo efeito Golem se aplica àquelas circunstâncias nas quais a professora desenvolve expectativas negativas quanto ao desempenho do aluno. Por exemplo, quando o aluno tem alguma dificuldade de aprendizagem ou de comportamento. Nesses casos a professora tende a dar menos atenção para o aluno, explicar menos, reforçar menos e punir mais. Nós todos sabemos que meninos agitados e desafiadores podem ser verdadeiros “monstrinhos”. Só que eles são alunos também e precisam aprender. E a missão das professoras é ensinar os alunos. As professoras precisam então aprender a identificar e a modificar estrategicamente suas expectativas (ou contratransferências) em relação ao desempenho dos alunos. Sem isso a coisa desanda. O resultado é o fracasso escolar e os sentimentos de desamparo da professora.

Os conhecimentos sobre os efeitos Pigmalião e Golem constituem exemplos de profecias auto-realizáveis. São ferramentas motivacionais extremamente poderosas que podem ser usadas em sala de aula pelas professoras para promover a aprendizagem. Além da eficácia, sua principal característica é o baixo custo de implementação.

Vitor Geraldi Haase
Professor titular
Departamento de Psicologia
FAFICH – UFMG