Núcleos do conhecimento

O estudo da cognição humana parece ser permeado por duas vertentes principais. A primeira defende a ideia de que a mente humana é flexível e possui a capacidade de se adaptar a qualquer novo desafio cognitivo que seja apresentado à pessoa. Já a segunda, se baseia na teoria de que na mente humana existem vários mecanismos específicos que foram moldados durante a evolução para se adaptarem a cada esfera específica do conhecimento (SPELKE, 2007). O constante debate entre essas duas teorias acabou gerando uma dificuldade de estabelecer até onde a cognição e o comportamento humano podem ser classificados como algo hereditário ou aprendido. A partir desse embate, surgiu uma ciência do desenvolvimento que não só questiona essas duas vertentes, mas se direciona para um terceiro posicionamento: no qual os seres humanos seriam dotados de sistemas separados de núcleos de conhecimento, a chamada hipótese dos sistemas nucleares, core systems.

Frisando a origem ontogenética e filogenética do conhecimento, e baseado em estudos realizados com crianças e primatas não humanos, a cognição humana seria, então, baseada em quatro principais sistemas nucleares sendo definidos por: objetos inanimados, agentes e suas ações dirigidas a objetivos, números e suas relações de ordenação, adição e subtração, e lugares e noção espacial (SPELKE, 2007, p.89).

Hauser e Spelke (2004) propõem que quatro propriedades caracterizam os sistemas nucleares: são específicos por domínio, específicos por tarefa, modulares e inatos. (…) Sistemas nucleares são definidos como sendo modulares. Em outras palavras, cada sistema utiliza um subconjunto de informação fornecida pelos sistemas de input. Os sistemas são relativamente automáticos e cegos para crenças explícitas e objetivos ou metas. Assim, cada um representa apenas um pequeno subconjunto dos objetos ou eventos que a criança percebe, permite resolver um conjunto limitado de problemas e opera com um grau bastante considerável de independência dos outros sistemas cognitivos. É a partir da combinação de representações provenientes desses diferentes sistemas, contudo, que a cognição humana atingiria a flexibilidade que a caracteriza (MARCILESE, 2011, p.563).

O sistema nuclear que relaciona com objetos, se baseia em três princípios: coesão, continuidade e contato. Ou seja, a relação dos objetos que movem-se quando conectados e restritos a sua extensão, apenas podem ser movidos caso não tenha nenhuma obstrução em seu caminho e que somente é possível se relacionar com eles quando existe uma distância que permite tal interação. Esses princípios permitem que os seres humanos, desde pequenos, compreendam a noção dos limites dos objetos e a permanência da sua forma independente de ser parcialmente ou completamente vistos, assim como predizer quando eles podem mover ou não. Crianças possuem uma noção limitada de objetos, sendo que às vezes não compreendem a constituição de certos materiais, e conseguem apenas representar uma pequena quantidade de objetos por vez, assim como os adultos que possuem a capacidade de dirigir sua atenção a três ou quatro objetos de cada vez.

O sistema para representar ações se baseia na noção das outras pessoas enquanto agentes, no princípio de reciprocidade, e não mais na representação espaço-temporal que direciona o sistema dos objetos. As ações normalmente buscam o cumprimento de alguma meta através de meios eficientes, sendo que as crianças já conseguem compreender a distinção entre as ações realizadas por seres vivos e objetos inanimados, que por sua vez não buscam atingir nenhuma meta.

O sistema referente à representação numérica diverge dos princípios estabelecidos nos objetos e no agente e suas ações, ela possui limites únicos. São propostas três propriedades centrais dessa representação, a primeira se relaciona com a imprecisão da representação dos números, sendo que essa imprecisão aumenta linearmente com o crescimento do valor cardeal; em segundo lugar, essas representações são abstratas e “são aplicáveis a diversas entidades encontradas em múltiplas modalidades sensoriais, incluindo arranjos de objetos, sequências de sons e sequências de ações percebidas ou produzidas” (MARCILESE, 2011, p.565); e, por último, que as representações numéricas podem ser comparadas e combinadas por operações de soma e subtração.

O quarto sistema se relaciona com os aspectos geométricos do ambiente, com a noção espacial, o que inclui a distância e os ângulos da superfície. Esse sistema falha em explicar propriedades geométricas de objetos que se movem e também de representar propriedades não-geométricas, como odor e cores. (SPELKE, 2007, p. 91).

Mais recentemente, um quinto sistema vem sendo estudado e cogitado como um possível sistema nuclear, a representação de intergrupo, a capacidade de fazer parte de um grupo social. Ao longo da evolução podemos observar uma tendência do ser humano de categorizar a si mesmo e os outros em grupos, mostrando uma preferência, seja baseada na raça, etnia, nacionalidade, religião ou uma atribuição arbitrária, em formar grupos.

Assim, os sistemas nucleares devem ser entendidos como partes específicas do processamento cognitivo que englobam cinco representações principais: objetos, ações, números, lugares e interação social. Considera-se ainda que a junção e o desenvolvimento desses núcleos são os responsáveis por fornecer algumas das bases para as maiores conquistas cognitivas humanas, como a aquisição da linguagem e de outros sistemas simbólicos, a capacidade de formular e seguir regras sociais.

Alice Tavares

Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais

Aluna de Estágio Básico do LND

Referências:

MARCILESE, Mercedes. Aquisição da linguagem e habilidades cognitivas superiores: o papel da língua no desenvolvimento da cognição numérica. 2011, p. 557-581.

SPELKE, Elizabeth. Lecture: Core Knowledge and Cognitive Development. 2000, 2nd Annual Lecture.

SPELKE, Elizabeth; KINZLER, Katherine D. Core knowledge. Developmental Science, 2007. P. 89–96.