Você conhece os dezenove subtipos de dislexia?

Os dezenove tipos de dislexia constituem uma das novidades de maior impacto clínico e teórico que vou discutir no curso de extensão “Dislexia do desenvolvimento: dos modelos neurocognitivos à clínica” que ocorrerá na FAFICH, nos dias 10, 12, 17, 19 e 24 de novembro de 18 às 22 horas. Para se inscrever, é só clicar aqui.

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A caracterização dos dezenove tipos de dislexia foi desenvolvida por Naama Friedmann, da Universidade de TelAviv (http://www.tau.ac.il/~naamafr/). O trabalho da Naama Friedmann é relevante e original por vários motivos:

  1. Não existe uma dislexia do desenvolvimento, mas várias, e sua caracterização tem relevância clínica;
  2. Alguns subtipos de dislexia podem ser tratados de forma simples, eficiente e inusitada;
  3. Apesar de serem menos freqüentes, as dislexias visuais existem e podem ser tratadas de forma empírica e teoricamente fundamentada;
  4. A teoria cognitivo-neuropsicológica pode ser articulada com a clínica de uma maneira que tem conseqüências na vida dos clientes;
  5. O modelo de dupla rota (vide Figura), atualizado e expandido, continua sendo o melhor referencial teórico para estudar as dislexias do desenvolvimento;
  6. Além de conseguir incorporar descobertas novas, advindas da neuroimagem funcional, tais como o papel da área visual da forma das palavras, o modelo de dupla rota tem valor heurístico. Foi analisando os múltiplos pontos de vulnerabilidade previstos pelo modelo de dupla rota, que Friedmann conseguiu dar sentido a manifestações clínicas de dislexia que até então não eram consideradas;
  7. Apesar do cérebro em desenvolvimento ser caracterizado pelo dinamismo das correlações estrutura-função e maiores possibilidades de remodelação neuroplástica, a neuropsicologia cognitiva continua sendo uma das ferramentas mais úteis para compreender a natureza das dificuldades subjacentes a diversos transtornos adquiridos e do desenvolvimento.

Quem tiver interesse em se aprofundar um pouco mais nessas questões pode vir fazer o curso de extensão sobre dislexia. Tem também uma vídeo-aula da Naama Friedmann na internet.

Sempre fui fã do modelo da dupla rota das dislexias. Fico muito entusiasmado ao ver como, ao longo dos anos, o modelo foi sendo aperfeiçoado, incorporando evidências novas e prevendo e interpretando fatos previamente desconhecidos. Kurt Goldstein dizia que os sintomas são apenas respostas às nossas perguntas. Para valorizar um comportamento como um sintoma em neuropsicologia faz-se necessário um modelo teórico das correlações anátomo-clínicas que lhe atribua significado. Sem o modelo, o neuropsicólogo está perdido. O modelo de dupla rota é o modelo do qual dispomos. Obviamente, todo modelo tem suas limitações. O modelo permite valorizar e compreender algumas coisas e não outras. O modelo pode funcionar como um buraco de fechadura, permitindo uma visão muito restrita da realidade. Por enquanto não é o caso do modelo de dupla rota. Ele foi se adaptando, expandindo, incorporando e prevendo fatos novos. Ainda é a principal ferramenta conceitual de que dispomos na neuropsicologia das dislexias.

Vitor Geraldi Haase
Professor titular
Departamento de Psicologia
FAFICH – UFMG