Como o cérebro aprende a ler as palavras?

Uma tentativa de responder a essa questão é a hipótese da reciclagem neuronal, que vou discutir no curso de extensão “Dislexia do desenvolvimento: dos modelos neurocognitivos à clínica” que ocorrerá na FAFICH, nos dias 10, 12, 17, 19 e 24 de novembro de 18 às 22 horas. Para inscrever-se, clique aqui.

As habilidades cognitivas podem ser classificadas em biologicamente primárias e secundárias. As habilidades primárias são ilustradas pela linguagem oral, cuja aquisição ocorre de forma intuitiva, baseada na experiência social, sem requerer uma pedagogia formal (Geary, 2008). Um dos principais exemplos de habilidades secundárias é a literácia. Nosso cérebro não foi pré-programado para aprender a ler. A aprendizagem da leitura requer uma pedagogia e, principalmente, muito esforço por parte da criança. A leitura é um artefato cultural inventando há apenas cinco mil anos. Nesse tempo não deu para evoluir mecanismos inatos que permitissem a aprendizagem da leitura de forma intuitiva.

Segundo a hipótese da reciclagem neuronal (Dehaene, 2012, veja também Scliar-Cabral, 2012), a aprendizagem da leitura depende da capacidade de estabelecer e automatizar conexões sinápticas entre o giro fusiforme do hemisfério esquerdo e os circuitos que representam os sons, a forma lexical e o significado das palavras. O giro fusiforme esquerdo situa-se na superfície ífero-lateral, na transição entre os córtex occipital e temporal. Essa região corresponde à área 37 de Brodmann e, em função do seu papel no reconhecimento visual de caracteres gráficas, ela foi denominada por Dehaene de Letterbox ou Visual Word Form Area (VWFA).

Originalmente, a Letterbox parece ter evoluído para reconhecer os objetos visuais mais complexos de relevância social para os humanos: as faces. Com a invenção da lectoescrita, ou seja, representação visual dos fonemas, sílabas e morfemas através de caracteres visuais, surgiu a necessidade de estabelecer e automatizar conexões entre áreas visuais e áreas da linguagem.

O giro fusiforme esquerdo foi reciclado, especializando-se no processamento de caracteres gráficos. O processamento de faces ficou então a cargo do giro fusiforme direito. Por que o “escolhido” foi o giro fusiforme? Provavelmente porque era a área mais à mão, a área cujas características computacionais e potencial conectivo melhor se coadunava a essa necessidade de conectar a percepção visual com a linguagem.

Não parece ter sido à toa, então, que o giro fusiforme foi incorporado ao circuito da linguagem. O mais provável é que restrições de ordem informacional e conexional tenham direcionado a construção da rede da leitura. A aprendizagem da leitura representa então um belo exemplo de interação entre a criação (modificação neuroplástica do cérebro pela experiência) e natureza (pré-programação genética para processar determinados tipos de informação).

como o cerebro aprende a ler

Essa hipótese é reforçada pelo fato de que a rede cerebral da leitura é universal. Ou ao menos é muito parecida entre ocidentais e chineses. (Não sabemos ainda como é a rede neuronal da leitura dos marcianos.). A chave para compreender a neurobiologia da leitura parece ser então a compreensão dos mecanismos epigenéticos que regulam o estabelecimento dessas conexões. Por outro lado, a elucidação da neurologia da dislexia poderá se fundamentar no conhecimentos dos mecanismos que interferem com o estabelecimento de conexões entre a Letterbox, o circuito Wernicke-Broca do processamento fonológico e outras áreas dispersas pelo córtex temporal, responsáveis pelo processamento semântico-lexical.

Vitor Geraldi Haase
Professor titular
Departamento de Psicologia
FAFICH – UFMG
Referências:

Dehaene, S. (2012). Os neurônios da leitura. Como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Penso.

Geary, D. C. (2008). An evolutionary informed education science. Educational Psychologist, 43, 179-195.

Scliar-Cabral, L. (2010). Evidências a favor da reciclagem neuronal para a alfabetização. Letras de Hoje, 45, 43-47.