Herdabilidade da leitura em São Paulo vs. Helsinki

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A genética da leitura e da dislexia vai ser um dos assuntos que vou abordar no curso de extensão sobre “Dislexia do desenvolvimento: dos modelos neurocognitivos à clínica” ocorrerá na FAFICH, entre os dias 15 e 18 de dezembro, das 14 às 19 horas. Para mais informações e inscrições, clique aqui.

Hoje li um artigo de revisão da Dorothy Bishop, professora em Oxford, sobre genética da dislexia (Bishop, 2015). Antes de começar a falar sobre a genética molecular da dislexia, ela fez uma introdução, revisando alguns conceitos básicos da genética quantitativa. Ou seja, como as comparações das correlações entre gêmeos monozigóticos e gêmeos dizigóticos e entre filhos vs. pais biológicos e filhos vs. pais adotivos permitem partilhar a variância do desempenho em leitura em três compartimentos: herdabilidade, ambiente compartilhado e ambiente não-compartilhado. A herdabilidade diz respeito à influência que o pool de genes envolvidos tem sobre o desempenho em leitura na população. O ambiente não compartilhado é aquela parcela de variância explicada por características comuns da família e da escola, que tornam os irmãos mais semelhantes um com os outros. O nível educacional dos pais e o hábito de ler histórias para os filhos são exemplos de ambiente compartilhado que afetam o desempenho em leitura. Finalmente, o ambiente não-compartilhado diz respeito aos efeitos do acaso e aos efeitos de experiências que tornam os irmãos diferentes uns dos outros. São exemplos de ambiente não-compartilhado a ordem do nascimento e as influências de diferentes professoras e colegas sobre o desenvolvimento da criança.

De um modo geral, os estudos com gêmeos e adotados apontam para uma influência substancial da herdabilidade sobre o desempenho de leitura, a qual pode explicar mais de 60% da variância populacional. Os dois tipos de ambientes exercem influências distintas conforme os estudos. Mas a maioria dos estudos parece apontar para uma grande influência do ambiente compartilhado, incluindo nível educacional dos pais, tipo de escola, hábitos de leitura, clima de relacionamento na família, valores atribuídos à educação etc.

Daí a Dona Bishop começou a explicar que a herdabilidade é uma característica da população e não do indivíduo e, mais importante ainda, a herdabilidade não é uma característica fixa. As percentagens de variância explicadas por cada um dos três tipos de experiência varia conforme a composição sociodemográfica da amostra. Até aí tudo bem. Brutal foi o exemplo que ela deu: em sociedades mais homogêneas, como a  Finlândia, a percentagem do desempenho explicada pela herdabilidade e ambiente não-compartilhado aumenta. Já em sociedades muito desiguais, como o Brasil, diminui a influência da herdabilidade e ambiente não-compartilhado e sobe a influência do ambiente compartilhado.

Literalmente, ela escreveu o seguinte: “Consider, for instance, reading ability in Brazil, where many children do not receive much schooling. A twin study done using the whole population of São Paulo would show low heritability, because much individual variation in reading would be related to educational experience. By contrast, in Helsinki, where nearly all children receive high quality reading instruction, heritability will be higher, because relevant environmental influences are less variable” (Bishop, 2015, p. 3).

Não preciso dizer que eu não gostei nem um pouquinho dessa parte aí. Até então era tudo música para os meus ouvidos. Aí virou uma barulheira informal. Mas não posso brigar com a realidade. O que a Dona Bishop falou, infelizmente, é verdade. Em pleno ano de 2015 nós ainda atendemos crianças na quarta, quinta ou sexta série que não sabem ler. Meus tristes trópicos!

Certamente a falta de uma política educacional baseada em evidência científicas (Morais, 2014) contribui para a nossa miséria intelectual e moral. Mas freqüentemente eu atendo crianças que me dão a seguinte impressão: “Esse molequinho aí só não aprendeu a ler ainda porque nenhum adulto teve a paciência de sentar com ele e ensinar-lhe como é que funciona o princípio alfabético”. Basta que um adulto com boa vontade sente com o moleque e lhe explique como é que o alfabeto funciona para que ele comece a progredir na leitura. Melhor ainda se for possível contar com algum material didático, como uma cartilha de alfabetização fônica (Seabra & Capovilla, 2010). Dá vontade de falar assim: “Vamos lá gente, alfabetizar não é bicho de sete cabeças. É só ter um pouco de boa vontade e usar o método certo”. Não entendo onde tranca.

Mas não desanimem. Não pensem que não faz sentido brincar de herdabilidade aqui no Brasil. Nada mais falso. Apesar, ou por causa mesmo, das nossas desigualdades sociais, a herdabilidade é tão ou mais importante aqui no Brasil. Vou explicar isso em um próximo post. E, é claro, vou entrar em mais detalhes no curso.

Vitor Geraldi Haase
Professor Titular
Departamento de Psicologia
FAFICH – UFMG

Referências:

Bishop, D. V. M. (2015). The interface between genetics and psychology: lessons from developmental dyslexia. Proceedings of the Royal Society B, 282, 20143139.

Morais, J. (2014). Alfabetizar para a democracia. Porto Alegre: Penso.

Seabra, A. G., & Capovilla, F. C. (2010). Alfabetização fônica: construindo competência de leitura e escrita (4ª. ed.). São Paulo: Casa do Psicólogo.