Neuropatologia da dislexia, ideologia e ascensão social

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A base neuropatológica da dislexia e suas implicações pedagógicas e sociais serão tematizadas no curso de extensão sobre “Dislexia do desenvolvimento: dos modelos neurocognitivos à clínica” que ocorrerá na FAFICH, entre os dias 15 e 18 de dezembro, das 14 às 19 horas. Para inscrever-se, clique aqui.

As dificuldades de aprendizagem, como a dislexia, têm causa biológica, inerente ao indivíduo? Ou se constituem apenas em construções sociais, em perversidades do sistema capitalista, com o objetivo de excluir e estigmatizar uma parcela da população? Fala-se, por exemplo, em fracasso escolar estrutural, como um mecanismo de dominação ideológica destinado a criar uma classe de lumpen trabalhadores sem qualificação profissional e remunerados com salários aviltantes.

Será que, quando diagnosticamos uma criança como sendo disléxica, estamos responsabilizando-a pelo fracasso do “sistema”? Ou com isso estamos apenas identificando um problema real do indivíduo, possibilitando, assim, a adoção de medidas visando ajudar a pessoa?

Os ideólogos de plantão lançam palavras de ordem contra a “medicalização do ensino” e contra a “medicalização” e “biologização” da própria vida. Confesso que já tentei analisar as evidências que esse pessoal usa para justificar suas posições. Não encontrei um pingo de evidência. O máximo de “evidência” que esse povo conhece vem de estudos qualitativos nos quais eles entrevistam uma meia dúzia de pessoas. Vão lá, pedem opinião das comadres e compadres e se impressionam com tudo que seus informantes lhes dizem que vem ao encontro de suas preconcepções. Varrendo para debaixo do tapete como irrelevantes quaisquer opiniões divergentes.

O que estigmatiza mais uma pessoa: ter um problema de aprendizagem diagnosticado como dislexia e receber o tratamento adequado ou ter seu problema diagnosticado como “burrice” e “preguiça” e sofrer o opróbio social? Confesso que não tenho estômago para me debruçar sobre determinados textos. Confesso que estou muito bem, obrigado, no meu quadrado científico, procurando embasar minhas convicções nas evidências que eventualmente encontro.

Muito se discute se a dislexia é uma doença ou não. Minha opinião pessoal é de que nenhuma dessas entidades, dislexia, discalculia ou TDAH constitui doença propriamente dita. Mas isso não significa que elas não tenham uma base biológica. Também não significa que um enfoque nosológico, enfatizando a identificação (diagnóstico) e intervenções para esses indivíduos não seja útil e recomendável.

Uma maneira inteligente de compreender a dislexia e condições afins é como condições de risco. Na nosologia psiquiátrica o pessoal fala em transtornos. Transtornos são conjuntos de sinais e sintomas (síndromes) que se associam a padrões específicos de história natural (prognóstico quando não são tratados) e respostas ao tratamento. Os transtornos muito provavelmente têm uma etiologia multifatorial, resultando da interação epigenética de múltiplos fatores gênicos e experienciais.

A dislexia é um subproduto do fato de que a lectoescrita é uma aquisição cultural recente, com no máximo cinco mil anos de idade. Não é tempo suficiente para que a evolução tivesse selecionado mecanismos que permitissem a aquisição intuitiva da leitura e escrita, como ocorre com a linguagem oral. Segundo o modelo de reciclagem neuronal proposto por Stanislas Dehaene, a aprendizagem da leitura se baseia no estabelecimento de conexões novas, geneticamente não-programadas, entre as áreas corticais responsáveis pelo processamento da estrutura sonora da linguagem e do seu significado nos córtex temporal, parietal e frontal, e áreas no córtex occípito-temporal encarregadas do reconhecimento de padrões visuais complexos.

A aprendizagem da leitura consiste, então, de uma exaptação. Ou seja, de um reaproveitamento para a leitura de recursos cognitivos que evoluíram originalmente para outras finalidades. Trata-se de uma espécie de “mexidão” cognitivo. Um reaproveitamento dos recursos disponíveis.

A aprendizagem da leitura é trabalhosa porque exige o estabelecimento dessas novas conexões, as quais dependem de treinamento e esforço, uma vez que o cérebro não foi pré-programado para estabelecê-las. Se isso for verdade, a dislexia pode então ser concebida como uma síndrome de desconexão. Como uma dificuldade para estabelecer novas conexões entre áreas corticais relevantes para o processamento de leitura.

Nesse caso, os indivíduos disléxicos seriam aqueles cujos cérebros, por alguma variação no processo de regulação epigenética da formação de novas conexões, enfrentam dificuldades para automatizar conexões entre a linguagem oral e o reconhecimento de padrões visuais complexos.

Que tipo de evidências apóiam essa afirmação? Inúmeras. Vou me restringir a comentar sobre algumas. Na década de 1970, o neurologista americano Albert Galaburda publicou uma série de casos de exames post-mortem do cérebro de indivíduos com dislexia (vide Figura). Ele observou algumas alterações neuropatológicas sutis nas áreas perisilvianas da linguagem nesses indivíduos.

Basicamente, foi observado no cérebro de alguns disléxicos a presença de focos neuronais ectópicos e desorganização citoarquitetônica (displasia) do córtex cerebral. Os neurônios que formam o córtex cerebral se originam de uma camada germinativa periventricular. Durante o processo de embriogênese cerebral, esses neurônios se enroscam em células radiais da glia e migram para o córtex cerebral. Chegando no córtex, cada neurônio vai para um endereço certo, contribuindo para a laminação cortical, e se envolve no estabelecimento de certos padrões típicos de conectividade com outros neurônios.

Os focos neuronais ectópicos e a desorganização citoarquitetônica identificados por Galaburda sugerem que algum processo genético ou ambiental perturbou, durante o desenvolvimento embrionário, a migração e o estabelecimento de conexões. Até hoje não se conhece bem a relevância demográfica e o significado patológico exato desses resultados. As ectopias neuronais e displasias corticais podem estar presentes apenas em um reduzido grupo de disléxicos, principalmente aqueles que também apresentam epilepsia. Os focos neuronais ectópicos e a desorganização citoarquitetônica são freqüentemente associados com epileptogênese. Mas alguns resultados recentes sugerem que perturbações no processo de migração e conectividade neuronal podem, de fato, estar envolvidos na dislexia:

  1. Foi descoberta uma meia dúzia de genes que estão implicados em humanos com a dislexia;
  2. Em modelos com roedores knock-out, foi demonstrado que esses genes estão implicados nos processos de migração e conectividade neuronal durante o período embrionário;
  3. O silenciamento de alguns desses genes em roedores se associa com padrões específicos de déficits no processamento temporal auditivo, os quais também são observados na dislexia;
  4. Estudos com ressonância nuclear magnética têm mostrado alterações nos padrões de conectividade córtico-cortical das áreas corticais relevantes em indivíduos com dislexia.

Todas as evidências mencionadas acima contribuem para uma compreensão da dislexia como uma síndrome de desconexão. Algumas variantes genéticas da regulação do estabelecimento de conexões córtico-corticais entre as áreas corticais envolvidas na leitura prejudicam a aprendizagem dessa habilidade. Tais indivíduos são absolutamente normais sob todos os outros aspectos. Sua dificuldade apenas se tornou aparente após a universalização da leitura como ferramenta cultural indispensável.

É discutível se isso constitui uma doença ou não. Certamente não é uma doença como Alzheimer, Parkinson ou esquizofrenia. Mas é uma condição que implica em disfuncionalidade e incapacidade, comprometendo de forma grave o desenvolvimento dos indivíduos afetados. As evidências mostram, por exemplo, que na idade adulta indivíduos com dificuldades de letramento têm maior risco de baixa renda, desemprego e transtornos psiquiátricos internalizantes (nas mulheres) e externalizantes (nos homens).

Na minha opinião, apenas essas implicações prognósticas já constituem motivo suficiente para focalizar o problema da dislexia a partir de uma perspectiva nosológica, procurando obter informações sobre a etiologia, quadro clínico, diagnóstico, identificação precoce, prevenção, tratamento etc. E oferecendo serviços de diagnóstico e tratamento de uma condição que afeta cerca de 10% da população.

Se lembrarmos que essas perturbações do neurodesenvolvimento podem não ocorrer de forma isolada, podendo estar presentes também em crianças com epilepsia e síndromes ambientais (fetal-alcoólica e fetal-cocaínica, hipóxia-isquemia perinatal etc.) e genéticas (Klinefelter, Noonan etc.), fica reforçada a validade do enfoque nosológico.

É claro que a maioria das crianças com dificuldades de aprendizagem da leitura não apresenta transtornos do neurodesenvolvimento. No Brasil, temos motivos para supor que o principal fator implicado no fracasso escolar é a má-qualidade do ensino mesmo. É negligência das evidências científicas e utilização de métodos arcaicos de ensino. É o caso também daquelas crianças que não têm nada de mais errado com elas a não ser o fato de que nenhum adulto jamais se dispôs a ensiná-las a ler.

Mas tem também aquele contingente no qual as dificuldades de leitura constituem indicadores de que existe algum problema adicional. Uma espécie de sinal de alerta de que alguma coisa diferente está acontecendo. Fazer de  conta que esses indivíduos não existem é uma perversidade que apenas os coloca em situação de dupla desvantagem. Prejudicados uma vez por serem pobres e brasileiros e terem acesso apenas a um ensino de má-qualidade, e prejudicados uma segunda vez por serem pobres e brasileiros e não terem acesso a recursos diagnósticos e terapêuticos adequados.

Será que é esperto ou justo ignorar as evidências para comprometimentos neuropatológicos na dislexia, em nome de uma ideologia que reduz as dificuldades de aprendizagem a construções sociais e problemas de opressão econômica e política? Será que essas ideologias não contribuem para oprimir mais ainda os indivíduos afetados, privando-os do acesso aos benefícios da educação como veículo de ascensão social?

Diagnósticos e tratamentos errados podem ter conseqüências desastrosas para a vida das pessoas. Mas a ausência de identificação e equacionamento dos problemas de aprendizagem da leitura é pior ainda. Constitui um mecanismo perverso de privação de um grupo desprivilegiado de acesso aos benefícios decorrentes da educação. E só beneficia a quem está mais interessado em promover sua agenda ideológica do que melhorar as condições de vida da população. Privar crianças com dificuldades de aprendizagem da leitura do acesso a serviços diagnósticos e terapêuticos é o modo mais seguro de fabricar pobres, de criar um eleitorado cativo, manipulável pelos populistas de plantão em função de sua ignorância e falta de qualificação profissional.

Vitor Geraldi Haase
Professor Titular
Departamento de Psicologia
FAFICH – UFMG