Churchill levou bomba três vezes e acabou decorando a gramática inglesa

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Desde Rousseau e Deewy, passando por Vygotsky, Piaget e Paulo Freire, a pedagogia tem implicância com a decoreba. O povo acha que o melhor e o único método deve ser a aprendizagem por descoberta e colaborativa. Eu acho que não ensinar fatos e não treinar as crianças para automatizarem determinadas habilidades, como a leitura, lhes presta um desserviço. E acaba prejudicando os mais pobres e aqueles que têm dificuldades. Tudo o que se sabe, sabe-se decor. O que não se sabe decor, não se sabe.

As consequências psicossociais e o manejo das dificuldades de aprendizagem da leitura é um dos temas que serão discutido no curso de extensão sobre “Dislexia do desenvolvimento: dos modelos neurocognitivos à clínica” que ocorrerá na FAFICH, entre os dias 15 e 18 de dezembro, das 14 às 19 horas (Inscrições: http://www.cursoseeventos.ufmg.br/CAE/DetalharCae.aspx?CAE=6898).

Um depoimento pessoal de Churchill é bastante ilustrativo sobre o que eu estou falando: “By being so long in the lowest form I gained an immense advantage over the cleverer boys. They all went on to learn Latin and Greek and splendid things like that. But I was taught English. We were considered such dunces that we could learn only English. Mr. Somervell – a most delightful man, to whom my debt is great – was charged with the duty of teaching the stupidest boys the most disregarded thing – namely, to write mere English. He knew how to do it. He taught it as no one else has ever taught it. Not only did we learn English parsing thoroughly, but we also practised continually English analysis. Mr. Somervell had a system of his own. He took a fairly long sentence and broke it up into its components by means of black, red, blue, and green inks. Subject, verb, object: Relative Clauses, Conditional Clauses, Conjunctive and Disjunctive Clauses! Each had its colour and its bracket. It was a kind of drill. We did it almost daily. As I remained in the Third Form three times as long as anyone else, I had three times as much of it. I learned it thoroughly. Thus I got into my bones the essential structure of the ordinary British sentence – which is a noble thing (Churchill, 1939, cit. in Christodoulou, 2014, p. 41).

Conclusões:

  1. Será que Churchill era disléxico e permanecer por três anos na aula de gramática do Mr. Somervell ajudou-o a superar suas dificuldades?
  2. Levar bomba não afetou a auto-estima do Churchill. Levar bomba não necessariamente desmoraliza o aluno. Depende de como o evento é interpretado. Levar bomba pode ser interpretado como um desafio ou como uma oportunidade para amadurecer, ou para consolidar conhecimento.
  3. Decorar a gramática inglesa não tolheu a criatividade de Churchill, um dos maiores oradores políticos da Humanidade. Ao contrário, serviu-lhe de instrumento para escrever melhor. Churchill não foi um orador brilhante apesar da gramática. Mas sim porque ele era genial e o conhecimento de gramática certamente foi uma ferramenta que contribuiu para isso.
  4. Será que não transmitir conteúdos, não automatizar habilidades e fazer de conta que as dificuldades de aprendizagem não existem ajuda as crianças?
  5. O objetivo da educação é formar cidadãos conscientes, responsáveis, críticos etc. Ok. Mas quais são os conhecimentos e habilidades, quais são as ferramentas indispensáveis para atingir esses nobres objetivos?

Vitor Geraldi Haase
Professor Titular
Departamento de Psicologia
FAFICH – UFMG

Referência:

Christodoulou, D. (2014). Seven myths about education. London: Routledge / The Curriculum Centre.