“Garotos-problema”: sintomas, causas e prognóstico do Transtorno Desafiador de Oposição

“Toda semana, todo dia vai bilhete no caderno dele pra mim, por mau comportamento, que Tiago fez, que Tiago aconteceu… Ontem mesmo eu falei: Tiago, eu já não aguento mais… Sinceramente, tem horas que dá vontade de tirar ele do colégio; que eu tenho mil e um problemas, eu tenho que pensar pra cinco [referindo-se aos cinco filhos], não é só por ele.”

Mãe de Tiago, 8 anos, criança com sintomas de comportamento agressivo e transgressor (Pesce, Assis, & Avanci, 2008).

Frequentemente nos deparamos com relatos como esse, feitos por professores, pais e outras pessoas que convivem com os “garotos-problema”, que normalmente são vistos como causadores do caos e de um incômodo geral. Essas crianças se comportam de maneira negativa, sempre se opondo às regras, desobedecendo adultos, causando grande angústia e aflição aos que estão inseridos em seu cotidiano. Esses comportamentos podem estar ligados a transtornos externalizantes, no qual são apresentadas condutas que desencadeiam consequências negativas no ambiente e que são, normalmente, de difícil tratamento. Os transtornos são considerados externalizantes porque são encontrados comportamentos expressos no ambiente, e não somente eventos privados, podendo, inclusive, causar prejuízos ao meio (Camargo, Diniz, Fuentes, & Consenza, 2008).

Apesar de todas as pessoas apresentarem algum(uns) desses comportamentos em situações pontuais ao longo da vida, no caso dos indivíduos que apresentam qualquer transtorno externalizante essas condutas indesejáveis são persistentes e fazem parte do sujeito, caracterizando um sintoma do transtorno. Esses transtornos são classificados como exclusivamente próprio de crianças e adolescentes, e capazes de afetar seu desenvolvimento, estruturando um indivíduo com dificuldades de socialização e outros problemas (Bordin & Offord, 2000).

Ainda que, normalmente, sejam vistos pelos familiares e professores como um conjunto de comportamentos isolados e passageiros, os transtornos externalizantes podem resultar em um adulto antissocial, com problemas emocionais, aumentando a probabilidade de envolvimento com drogas, abuso de álcool e outras substâncias, por exemplo (Camargo, et al, 2008). Um dos transtornos externalizantes que afetam milhares de crianças e adolescentes e que tem grande influência em seu desenvolvimento é o transtorno desafiador de oposição, também conhecido como transtorno de oposição desafiante ou TDO.

Segundo o DSM-V, o transtorno de oposição desafiante se trata de uma conduta persistente e negativa, na qual o indivíduo apresenta humor raivoso e irritável, é desobediente e questionador às regras que são impostas, desafiador em relação às exigências e eventos que lhe são colocados, hostil com figuras de autoridade e de natureza vingativa. Normalmente, esses comportamentos são notados logo no início da vida social, na infância, antes dos 8 anos de idade, porém podem desencadear efeitos duradouros no comportamento do sujeito.

Para um indivíduo ser considerado com transtorno de oposição desafiante, é necessário que os comportamentos indesejáveis socialmente ocorram com frequência recorrente, que sejam persistentes e que haja impacto sobre terceiros, desconsiderando irmãos. Além disso, é necessário que pelo menos quatro desses oito tipos de comportamentos sejam apresentados:

  • Se descontrola com facilidade;
  • Frequentemente entra em confronto e briga com adultos;
  • Constantemente desafia ou recusa a obedecer a solicitações ou regras dos adultos;
  • Frequentemente se comporta com intenção de chatear ou incomodar outras pessoas;
  • Não admite seu erro ou comportamentos indesejáveis e coloca a culpa em outras pessoas;
  • Facilmente fica aborrecido;
  • Frequentemente mostra-se enraivecido ou ressentido;
  • É malvado ou vingativo.

Os comportamentos acima citados devem ocorrer com frequência maior do que comparado a outros indivíduos de mesma idade, gênero e cultura para se considerar o diagnóstico de TDO e acarretar consequências negativas na produtividade, no cotidiano e em seu ambiente (APA, 2014).

As crianças que apresentam TDO, normalmente exibem os sintomas e comportamentos desafiadores/opositores em casa, podendo não demonstrar os mesmos comportamentos na escola ou na comunidade. Porém, quando é estendido a outros ambientes, é apresentado um caso mais grave do transtorno. Essa discrepância também acontece com o alvo ao qual as crianças direcionam o comportamento, preferindo sempre pessoas próximas ou adultos com os quais tenham um contato maior e certa familiaridade (American Psychiatric Association, 2014).

Em indivíduos com TDO, a percepção de seu próprio comportamento em geral é contraditória com a realidade, e normalmente afirmam que os comportamentos desafiadores opositores são resultado de exigências e eventos absurdos colocados para ele (Camargo, et al, 2008).

O transtorno desafiador de oposição pode ser influenciado por fatores genéticos e ambientais como a reatividade do cortisol basal reduzida, anormalidades no córtex pré-frontal e na amígdala. Entretanto, grande parte das pesquisas que encontraram marcadores neurobiológicos que poderiam explicar o transtorno foram feitas em amostras que não diferenciaram transtornos de conduta e o transtorno de oposição desafiante, tirando a especificidade desses fatores estudados (APA, 2014).

Nota-se que a maior parte dos indivíduos com transtorno desafiador de oposição são do sexo masculino. Nas meninas, na maior parte das vezes as causas para esse transtorno são de natureza genética (Camargo, et al, 2008). Fatores emocionais, como níveis elevados de reatividade emocional e baixa tolerância a frustrações, podem estar relacionados à predisposição do desenvolvimento do transtorno. Crianças que se encontram em situação na qual os pais estão em discórdia conjugal têm maior chance de desenvolver TDO. Além disso, problemas domésticos em geral podem induzir e agravar os casos (APA, 2014).

Segundo Camargo et al., os indivíduos com TDO têm dificuldades na inibição de respostas motoras em tarefas que exijam parada abrupta da execução da atividade e apresentam déficits cognitivos quentes, que estão relacionados a dificuldades no controle de emoções e autoregulação. Além disso, crianças diagnosticadas com TDO têm mais dificuldade de lidar com situações de punição/reforço, prejudicando a aprendizagem de comportamentos socialmente aceitáveis, se submetendo a situações arriscadas com maior frequência e menor receio.

Apesar de ser considerado um transtorno de difícil tratamento, as dificuldades enfrentadas por pais e professores frente ao comportamento expresso por crianças diagnosticadas com TDO podem ser amenizadas ou até revertidas completamente através de psicoterapias, fármacos, programas desenvolvidos pela escola e comunidade, tratamentos hospitalares e serviços sociais (Pesce, et al, 2008). Considerando as peculiaridades agravantes em cada caso, como comportamentos persistentes ou de intensidade maior, interferência no desempenho acadêmico, de relações pessoais e desenvolvimento causadas pelo transtorno, as intervenções mais aconselháveis são de treinamento de pais e intervenção medicamentosa (Pinheiro, Schmitz, Mattos, & Souza, 2004).

É necessário, em todos os casos, não concentrar a intervenção somente na criança, mas também em todo o contexto no qual ela está inserida e que interfere na maneira como ela responde ao tratamento. É necessário a compreensão e engajamento dos pais e professores, auxiliando a criança a se engajar em sua melhora e alterando o ambiente, propiciando seu desenvolvimento bem sucedido e um futuro favorável às expectativas da família, criança e sociedade.

Emanuelle Oliveira
Graduanda em Psicologia pela UFMG
Aluna de iniciação científica do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento

Referências:

American Psychiatric Associatio. (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed.

Assis, S. G., Avinci, J. Q., & Pesce, R. P. (2008). Agressividade e transgressão em crianças: um olhar sobre comportamentos externalizantes e violência na infância. Rio de Janeiro: FIOCRUZ/ENSP/CLAVES/CNPq.

Bordin, I. A. S., & Offord, D. R. (2000). Transtorno da conduta e comportamento anti-social. São Paulo: Revista Brasileira de Psiquiatria, 22(2). Recuperado em 3 de maio, 2016 de http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-44462000000600004&script=sci_arttext

Camargo, C. H. P., Consenza, R. M., Fuentes, D., & Malloy-Diniz, L. F. (2008). Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed.

Mattos, P., Schmitz, M., Serra-Pinheiro, M. A., & Souza, I. (2004). Transtorno desafiador de oposição: uma revisão de correlatos neurobiológicos e ambientais, comorbidades, tratamento e prognóstico. São Paulo: Revista Brasileira de Psiquiatria, 26(4). Recuperado em 3 de maio, 2016 de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462004000400013&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt