O uso dos dedos e as habilidades matemáticas em crianças com paralisia cerebral hemiplégica

A teoria da cognição corporificada sugere que as representações mentais, abstratas, se apoiam nos sistemas corporais, seja sensorial ou motor. Essa perspectiva nos ajuda a entender sobre a hipótese conhecida como “manumerical cognition” que afirma que o uso dos dedos durante a infância auxilia na compreensão dos números, na aprendizagem das quantidades, de suas propriedades (cardinalidade e sequenciamento) e também na execução das operações aritméticas.

O estudo de Noël (2005) mostrou que em crianças de 5 a 6 anos de idade a gnosia digital, habilidade básica relacionada à identificação e à discriminação dos dedos, é um dos melhores preditores do desempenho das operações aritméticas. Estudos de neuroimagem também mostram a importância dos dedos na matemática. Foi encontrado que as representações tanto dos números quanto dedos são parcialmente processadas em um mesmo substrato neural, localizado no giro pré-central esquerdo (Penel, Piazza, LeBiHan, & Dehaene, 2004).

Os dedos podem funcionar como uma importante ferramenta corporal, que auxilia no processo de transição das representações não-simbólicas para as representações simbólicas dos números.  No início do desenvolvimento do processamento numérico, os indivíduos possuem uma habilidade numérica simples e inata que possibilita uma compreensão elementar dos números e das quantidades que será base para o desdobramento das representações simbólicas. A partir da aprendizagem da linguagem, os indivíduos iniciam o processo de transição entre as representações, uma vez que as crianças se tornam capazes de simbolizar os números em palavras faladas e, posteriormente, em palavras escritas. Na pré-escola, as crianças aprendem a simbolizar os números a partir do sistema numérico arábico. As representações numéricas baseadas nos dedos são uma representação icônica de magnitudes, já que representam de forma concreta as quantidades, e isso facilita a associação das quantidades com os rótulos verbais e escritos.

Com os resultados encontrados nos estudos científicos se vê que o uso dos dedos é uma importante ferramenta na aprendizagem da matemática. Então, a pergunta que surge é se esse auxílio é essencial ou não para a aquisição das habilidades matemáticas. Thevenot e colaboradores (2014) propuseram uma investigação das habilidades aritméticas em crianças com paralisia cerebral do tipo hemiplégica, comparando-as com um grupo de crianças com desenvolvimento típico para, a partir disso, entender melhor como se dá a relação entre os dedos e números.

A Paralisia Cerebral (PC) se refere a um conjunto de sinais e sintomas motores ou não-motores relacionados a uma lesão não progressiva em cérebros prematuros. A paralisia cerebral do tipo hemiplégica (PCH) é uma variação de PC que se relaciona ao atraso nos marcos do desenvolvimento motor, apresentando déficits na organização dos movimentos do corpo que podem acometer tanto os membros superiores quanto os membros inferiores (Moura; Haase, 2014).

No estudo de Thevenot e colaboradores (2014)  esperava-se que as crianças hemiplégicas (de 7-11 anos de idade, com paralisia principalmente no membro superior e com uma inteligência preservada) mostrassem dificuldades na gnosia digital, ou seja,  no reconhecimento dos dedos. Se os dedos forem essenciais na aprendizagem das habilidades numéricas, essas crianças apresentariam também menor proficiência nas tarefas de operações aritméticas.

Os resultados mostraram que as crianças com hemiplegia usavam pouco os dedos como estratégia de contagem nas tarefas que avaliavam o uso dos dedos. Essas crianças também apresentaram dificuldades nas tarefas de contagem e de comparação numérica. Porém, as crianças hemiplégicas não apresentaram diferenças significativas no desempenho das habilidades matemáticas em relação às crianças típicas. Nas tarefas que avaliaram as habilidades das representações não-simbólicas (comparação de magnitudes), as crianças com PCH também não apresentaram diferenças no desempenho em relação ao grupo controle.

Dessa maneira, as crianças com hemiplegia apresentaram as habilidades de representação não-simbólica preservadas. No entanto, as dificuldades motoras e proprioceptivas nas crianças com PCH interferiram na representação, na organização e na execução corporal, fazendo com que essas crianças utilizem pouco ou não utilizem os dedos como uma estratégia de contagem. A falta do uso dos dedos nas habilidades numéricas pode explicar a maior dificuldade nas tarefas que envolvem as representações simbólicas dos números, fato que corrobora a hipótese de que os dedos são auxiliadores no processo de transição das representações não-simbólicas e simbólicas. Porém, o uso escasso dos dedos não interfere no desempenho das tarefas de operações aritméticas, sendo essas crianças, com inteligência preservada, capazes de adquirir as habilidades aritméticas. Isso porque elas são capazes de desenvolver estratégias alternativas, como o maior uso da memória de trabalho, ao invés de contar nos dedos. O uso de estratégias alternativas acabam sendo uma evidência de que o uso dos dedos na representação numérica não é essencial para a aquisição das habilidades aritméticas, já que não é a única estratégia que possibilita o aprendizado numérico, apesar disso, o uso dos dedos continua tendo seu papel facilitador para o aprendizado da matemática.

Myrian Silveira
Graduanda em Psicologia pela UFMG
Aluna de iniciação científica do LND

Referências:

Fontes, P. L., Moura, R., & Haase, V. G. (2014). Evaluation of body representation in children with hemiplegic cerebral palsy: toward the development of a neuropsychological test battery. Psychology & Neuroscience, 7(2), 139-149.

Catherine Thevenot , Caroline Castel , Juliette Danjon , Olivier Renaud, Cécile Ballaz , Laetitia Baggioni & Joël Fluss (2014) Numerical Abilities in Children With Congenital Hemiplegia: An Investigation of the Role of Finger Use in Number Processing, Developmental Neuropsychology, 39:2, 88-100.

O desenvolvimento numérico. Discauculoa Brasil. Disponível em: https://discalculiabrasil.wordpress.com/discalculia-brasil/a-discalculia/4-o-desenvolvimento-numerico/. Acesso: 13 de maio de 2016.