Cegos apresentam melhor estimação numérica do que os que enxergam?

É comum ouvir que cegos desenvolvem mecanismos compensatórios para a realização de tarefas cotidianas. Ou seja, esses indivíduos desenvolvem melhor algumas habilidades sensoriais, em especial proprioceptivas, do que aqueles que enxergam, por causa da deficiência visual. Alguns estudos apontam que a privação visual precoce influencia processos cognitivos aprendidos após o nascimento, como atenção visuoespacial (Collignon et al., 2006; Röder, Rösler, & Neville, 1999 apud Castronovo & Seron, 2007).

A percepção entre diferentes estímulos é determinada a partir de um limiar diferencial, dado a partir da proporção entre eles, ao que se dá o nome de lei de Weber (Castro et al., 2013). Essa lei é valida para estímulos de naturezas diferentes (visuais, táteis, auditivos, entre outros). Nos cegos, essa propriedade quanto à percepção de quantidades é pouco estudada em cegos.

Além disso, os cegos vivenciam os números de maneira bem diferente dos não cegos, provavelmente, aqueles apresentam uma melhor experiência numérica em termos de audição, tato e propriocepção do que estes. Dehaene e colegas (1993 apud Castronovo & Seron, 2007) descreveram o efeito SNARC, que descreve a formação de uma linha numérica mental, organizada em um contínuo e orientada da esquerda para a direita, durante a aprendizagem numérica. Mais tarde, soube-se que a formação dessa linha numérica não é afetada pela privação visual precoce. (Dehaene, 1997 apud Castronovo & Seron, 2007).

Assim, foram formuladas duas hipóteses distintas: a hipótese da limitação sensorial e a hipótese dos mecanismos compensatórios. Segundo a hipótese da limitação sensorial, a visão desempenha um papel importante na aprendizagem numérica, de modo que cegos podem não ser capazes de lidar com os números ou discriminá-los pelo fato de a visão permitir a apreensão de estímulos de dimensões diversas ao mesmo tempo, além de requerer menos uso da memória de trabalho. Entretanto, segundo a hipótese dos mecanismos compensatórios, existem evidências do desenvolvimento de estratégias cognitivas compensando a ausência da visão. Ou seja, a cegueira atua como um estímulo ao desenvolvimento de estratégias cognitivas, e não como um obstáculo ao aprendizado (Gaunet & Rossetti, 2006 apud Castronovo & Seron, 2007).

A partir disso Castronovo e Seron (2007) desenvolveram um estudo para comparar a estimação visual entre cegos (grupo experimental) e não cegos (grupo controle), no qual os sujeitos realizaram 5 tarefas de percepção numérica, 2 tarefas experimentais e 3 tarefas controle. Os pesquisadores pretendiam avaliar se cegos seguem a lei de Weber quanto à percepção numérica assim como indivíduos que enxergam.

O grupo experimental, para as quatro primeiras tarefas (1 experimental e 3 controles), foi constituído por 12 cegos (6 mulheres), com idades entre 18 e 61 anos (M = 40, DP = 17). Destes, 6 dos sujeitos apresentavam cegueira congênita, 3 ficaram cegos entre o primeiro e segundo anos de vida e 3 apresentavam visão baixa. Todos tinham como idioma materno o francês e liam Braille desde a infância. O grupo controle, por sua vez, foi formado de modo a equiparar os sujeitos controle e os sujeitos experimentais em termos de idade e sexo, sendo composto por indivíduos de 17 a 63 anos de idade (M = 39, DP = 18). Os membros do segundo grupo foram vendados durante a realização das tarefas para que suas condições, durante o experimento, fossem tão próximas quanto possível das condições do primeiro grupo.

Para a segunda tarefa experimental, foram avaliados 14 voluntários (4 mulheres) com alguma deficiência visual (cegueira congênita; cegueira precoce; ou baixa visão desde o nascimento seguida de cegueira precoce). Destes, 10 participaram dos quatro experimentos anteriores e apresentavam idades entre 18 e 68 anos (M = 44, DP = 18). Todos tinham o francês como idioma materno e liam Braille desde a infância. O grupo controle foi formado por 14 sujeitos controle (sem deficiência visual) pareados com o grupo experimental em termos de idade e sexo (idade entre 19 e 67; M = 45, DP = 19).

A primeira tarefa (tarefa de estimação de pressionamento de botões – KPE) consistia na tradução de 16 números entre 5 e 64 de sua forma simbólica – oral – para sua forma não simbólica – cliques sucessivos ao botão do mouse. Os testandos foram orientados a não contar os cliques em voz alta e a realizar a tarefa o mais rápido possível, de modo a evitar subvocalizações, ou seja, a contagem mental. Além disso, os aplicadores deixaram claro que a tarefa visava avaliar a estimação, não sendo necessários resultados exatos.

A segunda tarefa (tarefa de contagem subvocal – SC na sigla em inglês), primeiro dos experimentos controle, pretendia controlar se os sujeitos contavam vocal ou subvocalmente durante a KPE. Os sujeitos ouviam os mesmos estímulos apresentados na KPE em ordem pseudorrandômica e foram orientados a contar subvocalmente, o mais rápido possível, até alcançar o número correspondente ao estímulo apresentado.

As duas últimas tarefas controle foram desenhadas de modo a assegurar que os sujeitos tentassem alcançar o número alvo e não uma aproximação do tempo gasto para alcançá-lo. Na terceira tarefa (tarefa de estimação da duração da pressão ao botão – KPDE), os sujeitos foram orientados a pressionar o botão pelo tempo aproximado que acreditavam ser necessário para alcançar o valor correspondente aos estímulos, que eram os mesmos da KPE. A análise foi feita pela comparação das respostas de cada indivíduo, não sendo estipulada uma medida prévia para cada valor.

A quarta tarefa (tarefa de estimação da duração do som – TDE) consistiu na apresentação de 16 sons com duração crescente dentro da variação média de duração da pressão das teclas na KPDE.  Os sujeitos deveriam reproduzir a duração do som que ouviram pressionando o botão esquerdo do mouse para iniciar a contagem de tempo e o botão direito para parar a contagem. Todos foram instruídos a não contar os segundos de duração do som. O aplicador enfatizou a natureza de estimação da tarefa e a não necessidade de respostas exatas.

A quinta tarefa (tarefa de estimação de eventos auditivos – AEE) visava avaliar a diferença entre grupos em uma tarefa de estimação com estímulos não simbólicos obtidos passivamente e resposta dada na forma verbal. Na última tarefa, os sujeitos ouviram uma sequência de sons de duração variável. Eles foram, então, instruídos a estimar o número de sons diferentes, sem contar. Era enfatizado, durante as instruções, que os sons não seguiam um padrão temporal identificável e que a quantidade de sons na sequência é aleatória. Antes da aplicação da tarefa, foi apresentada uma sequência de sons para que os testandos pudessem estar cientes da impossibilidade de contar os estímulos.

Na KPE, foram eliminados 2 sujeitos de cada grupo, que não conseguiram suprimir a contagem durante a realização da tarefa. A média geral de intervalos entre os cliques foi de 172ms, bem inferior à média do tempo de contagem, que foi de 240ms (medido pela SC), excluindo a possibilidade de contagem subvocal. O grupo experimental teve uma média de 165ms e o controle de 178ms na KPE. Ambos os grupos apresentaram maior latência de resposta à medida que a magnitude dos itens aumentava o que, provavelmente, pode ser explicado pelo cansaço dos sujeitos. Foi feita uma regressão com a média de cliques e o desvio padrão, que mostrou que a média de cliques aumentou linearmente com a magnitude dos alvos, de modo que os não cegos apresentaram maior variação entre a estimação e o alvo do que os cegos. Os indivíduos que enxergam se saíram pior à medida que a magnitude dos alvos aumentou, e esse grupo apresentou uma tendência a superestimar os valores.

Cada sujeito cego foi comparado com seu par que enxerga a partir de um teste t, que resultou em um melhor desempenho dos cegos sobre os não cegos com quem foram pareados (p < 0,001). Apenas dois pares de sujeitos não apresentaram diferenças significativas, sendo que, nesses pares, os indivíduos que enxergam tiveram escores bastante elevados. Não houve diferenças significativas entre os cegos que sugerissem influência pela causa da cegueira. Em ambos os grupos a lei de Weber foi obedecida, porém os cegos parecem ser menos influenciados por ela, já que suas estimações apresentaram uma discrepância menor com o valor do alvo.

O grupo controle apresentou uma maior discrepância entre tempo necessário para alcançar o alvo na KPDE do que os cegos. Estes tendem a superestimar levemente o tempo, ainda com acurácia bastante elevada, enquanto aqueles subestimavam mais os intervalos de tempo, apresentando uma imprecisão elevada. Uma maior variância no grupo dos não cegos do que no grupo dos cegos foi observada durante a realização da TDE, apesar de ambos os grupos terem acurácia semelhante. Os indivíduos que enxergam, entretanto, apresentavam menor acurácia nos três primeiros itens da tarefa. O fato de que nenhum dos grupos teve melhor desempenho na TDE do que na KPE assegura que os sujeitos não se utilizaram da duração temporal do estímulo para a estimação na primeira tarefa.

Na segunda tarefa experimental, AEE, foram realizadas 3 correlações parciais com a média das respostas, que resultaram na possibilidade de predizer as respostas a partir da magnitude e duração dos estímulos. Nessa tarefa, os não cegos não prestaram atenção à duração dos estímulos, de acordo com os resultados apresentados, sendo os cegos mais sensíveis a essa variável. Ambos os grupos apresentaram médias e desvios padrões variando de forma diretamente proporcional ao tamanho do alvo, como seria esperado pela lei de Weber.  A estimação, também, foi menos acurada à medida que a magnitude do estímulo aumentou, e quanto maior o estímulo, mais ele foi subestimado. Os cegos se mostraram mais acurados nas sequências pequenas, mas essa acurácia diminuía nos estímulos de média ou grande magnitude. Os indivíduos que enxergam, por sua vez, subestimaram todos os estímulos.

Foi realizada a análise de cada cego com seu respectivo par e na maior parte das vezes, os cegos tiveram melhor desempenho que os sujeitos controle. Apenas 4 pares de sujeitos tiveram desempenhos semelhantes e 2 sujeitos, com cegueira congênita, foram pior que seus pares. Entretanto, o resultado geral não indica influência da causa da cegueira no desempenho na AEE. O grupo experimental apresentou melhor estimação que o grupo controle e uma menor tendência a subestimar os alvos maiores, além de melhor acurácia em itens pequenos.

Como 10 dos sujeitos que realizaram a AEE haviam participado da KPE, seus resultados nas duas tarefas foram comparados. Eles apresentaram desempenho similar em ambas, para os itens de pequena magnitude, e diferença significativa nos itens de média e grande magnitude.

O desempenho dos cegos, no estudo de Castronovo e Seron, foi superior ao dos controles, especialmente na KPE, na qual apresentaram menor discrepância entre estímulo e resposta. Na AEE, por sua vez, o grupo experimental só apresentou melhor desempenho nas menores magnitudes apresentadas.

A partir do observado, conclui-se que a privação visual de longo prazo parece levar ao desenvolvimento de melhores habilidades de estimação numérica, especialmente quando há propriocepção envolvida. Mesmo que os cegos tenham apresentado resultados consistentes com a existência de uma linha numérica mental, como sugerido pelo efeito SNARC, a discrepância entre estimação e resultado aumenta com a magnitude, tal qual deve acontecer segundo a lei de Weber, eles também apresentam habilidades compensatórias para a realização desse tipo de tarefa.

Dados recentes mostram uma relação diretamente proporcional entre a experiência numérica e a habilidade de estimação (e.g., Booth & Siegler, 2006; Lipton & Spelke, 2005; Verguts et al., 2005 apud Castronovo & Seron, 2007). A forma como os cegos experienciam as numerosidades desde muito jovens indica os resultados encontrados, pois cegos usam informações numéricas o tempo todo em seu cotidiano (p. ex. na locomoção, já que a estimação numérica, sobretudo a proprioceptiva, é uma de suas melhores pistas de localização). Assim, é esperado que o desempenho desses sujeitos em tarefas numéricas proprioceptivas seja melhor do que o dos não cegos, já que a experiência do primeiro grupo é muito maior.

Mesmo que os cegos desenvolvam habilidades que compensam sua deficiência, apresentando melhor desempenho nas tarefas propostas, o desempenho numérico geral dos dois grupos de indivíduos se equipara, já que a habilidade de enxergar de um grupo seria “substituída” pelas estratégias compensatórias do outro. Entretanto, como as modalidades numéricas analisadas no estudo de Castronovo e Seron não englobam todas as representações numéricas possíveis, são necessários estudos complementares nas modalidades não contempladas para que se saiba se o desempenho superior dos cegos se dá, realmente, apenas nas tarefas de propriocepção.

Outro estudo apontou que a privação visual precoce estimula o desenvolvimento de habilidades numéricas compensatórias específicas (Gaunet & Rosset, 2006 apud Castronovo & Seron, 2007). Além disso, a necessidade da utilização da informação proprioceptiva no cotidiano pode levar os cegos a possuírem uma melhor representação cerebral das regiões proprioceptivas. As hipóteses da limitação sensorial e dos mecanismos compensatórios propõem que a visão desempenha um papel importante no desenvolvimento das habilidades matemáticas. O melhor desempenho dos cegos nas tarefas realizadas, portanto, suporta a hipótese dos mecanismos compensatórios.

Isabelle Oliveira Pereira
Graduanda em Psicologia pela UFMG

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

Castronovo, J.; Seron, X. Numerical Estimation in Blind Subjects: Evidence of the Impact of Blindness and Its Following Experience. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance. 2007;33(5):1089-1106.

Castro, A. C. V. et al.. A Percepção do Tempo: Contributos do Procedimento de Bissecção. Temas em Psicologia. 2013;21(1):49-70.