Paulo Freire e a aprendizagem: transferir conhecimento ou fazer propaganda política?

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.” Paulo Freire

O terceiro autor mais citado do google acadêmico no campo das ciências humanas (Montesanti, 2016) e também patrono da educação brasileira empresta seu nome a escolas, cursinhos, repartições públicas e bibliotecas na América Latina e ao redor do mundo. Detentor de dezenas de títulos Doutor Honoris Causa, Paulo Freire é sem dúvida o pedagogo brasileiro que mais conseguiu atrair atenção para fora do território nacional. Seus livros são constantemente tratados como exemplos a serem seguidos por educadores, desde a infância até a vida universitária.

Embora o autor detenha ampla adesão de boa parte dos educadores, nos últimos anos algumas críticas aos seus trabalhos têm ganhado notoriedade, culminando em livros, artigos e palestras que associam as ideias do pedagogo ao cenário nada satisfatório da educação nacional. Estes opositores, como Armindo Moreira (2013), Olavo de Carvalho (2012), Pierluigi Piazzi (2008), Vitor Haase (2015) e Thomas Giuliano (2017) cutucam um vespeiro pouco receptivo a críticas levantando a pergunta: até que ponto as ideias de Freire realmente promovem um ensino de qualidade?

Para compreender o autor, é necessário ter em mente que ele busca romper com o modelo tradicional de educação: suas propostas incentivam, no ambiente escolar, o desejo de uma transformação incisiva da sociedade. Para o pedagogo, uma educação pautada no armazenamento de informações, onde estudantes deveriam decorar certos conhecimentos (até então descontextualizados da sua experiência), seria um grave problema para o aprendizado. Para Freire, o processo educacional é inseparável da ação política. Ao seguir a receita de Marx, autor que volta e meia é citado pelo patrono, Freire afirma que um dos propósitos da educação se encontra na ação de engajamento político. Qualquer professor que evitasse estas discussões em nome de uma neutralidade partidária estaria não só abandonando seus compromissos, mas descumprindo uma etapa fundamental do processo de ensino e aprendizagem.

“Minha presença de professor, que não pode passar despercebida dos alunos na classe e na escola, é uma presença em si política”.  (FREIRE, Pedagogia da autonomia)

“Saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo um ser aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições, um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a ele ensinar e não a de transferir conhecimento”. (FREIRE, Pedagogia da autonomia)

“Porque, dirá um educador reacionariamente pragmático, a escola não tem nada que ver com isso. A escola não é partido. Ela tem que ensinar os conteúdos, transferí-los aos alunos. Aprendidos, estes operam por si mesmos”.  (FREIRE, Pedagogia da autonomia)

“A revolução é biófila, é criadora de vida, ainda que, para criá-la, seja obrigada a deter vidas que proíbem a vida. Não há vida sem morte, como não há morte sem vida, mas há também uma “morte em vida”. E a “morte em vida” é exatamente a vida proibida de ser vida”. (FREIRE, Pedagogia do oprimido)

Conforme o Pedagogia do Oprimido (1987), livro de maior circulação do autor, o papel da verdadeira educação consiste na mudança do mundo. Assim, o professor dentro da sala de aula não deveria “transferir conhecimento”, mas comunicar seus valores políticos aos estudantes, desde que estejam adequados ao processo de transformação idealizado pelo pedagogo. Sem esse propósito político, eles continuariam limitados, não percebendo a necessidade de uma mobilização militante que modifique as estruturas desiguais e, consequentemente, conserte as mazelas da sociedade.

Embora estas ideias permaneçam difundidas no vocabulário dos profissionais de educação, é possível levantar objeções: até que ponto é negativo ter um professor que privilegie a transferência do conhecimento à manifestação de seus valores políticos partidários? Certamente é questionável a escolha acima, sendo possível prever que a maioria dos pais de alunos de uma escola básica prefiram um tutor que estimule seus filhos a decorar a tabuada, ainda que pareça estar totalmente separada do cotidiano daqueles alunos, ao que usa sua aula (ou parte dela) para apresentar seu posicionamento político, esperando que dali surja a próxima primavera de 1848.

Imagine um professor de matemática que entre em uma sala destinada a alunos do ensino médio noturno. A maioria destes discentes precisa trabalhar durante o dia para pagar as contas e ter uma condição melhor de vida. Segundo o cronograma, o tema da aula a ser lecionada é polinômios. Ao chegar à sala, o professor nota um contínuo desinteresse por parte da turma. Alguns alunos estão conversando, outros desatentos, cansados do trabalho. Sendo assim, o professor que deseja ensinar estes estudantes entrando em contato com a nova matéria, chamando a atenção dos dispersos, estaria transmitindo algum conteúdo ou forma de conhecimento? Parece ingênuo aceitar a hipótese contrária. Não é crível “desafiar o educando” sem estabelecer regras claras que inevitavelmente poderão entrar em confronto com seus conhecimentos, seu temperamento e até seu modo vida. Indispensável reiterar que, para Freire, este professor estaria cometendo um equívoco ao atuar hierarquicamente na tentativa de impor uma forma de conhecimento a estes estudantes.

Aqui o autor parece nos colocar uma inversão curiosa: apesar de um professor não poder transferir conhecimento, ele pode e deve despejar suas visões de mundo, “formando” aquele que assiste à sua aula. Em outras palavras, segundo o pedagogo, embora apresentar informações sem nenhum compromisso político seja uma ação impositiva e reprovável, projetar valores morais e políticos aos que estão em sala não é apenas aconselhável, como compõe o próprio objetivo da prática docente. Este raciocínio equipara a atividade do professor a de um apologeta, no sentido estreito do termo, transformando-o em um guia responsável por encaminhar seus alunos para a luta contra o que é percebido como “opressão”.

Contrariando as ideias de Freire, a ciência cognitiva afirma que a transferência de conhecimento é algo básico de que nenhum médico, engenheiro, professor ou pedagogo pode prescindir caso queira ser um bom profissional. Qualquer um que tenha lecionado dentro de sala ou tenha passado dificuldades com o ensino sabe da importância que um professor pode exercer ao dar o caminho das pedras ou impor (sim, impor) certa linha de conhecimento ou roteiro de estudo aos seus estudantes.

Talvez uma das melhores notícias para alunos que tenham dificuldades de aprendizagem é ter um professor preocupado o suficiente para estabelecer uma série de diretrizes personalizadas, transferindo seu conhecimento e deixando as questões políticas para o foro privado. Este professor não só identificaria os pontos de maior dificuldade do estudante, mas poderia guiá-lo de forma hierárquica pelo melhor caminho para sanar dúvidas e corrigir os erros do aluno que almeja acompanhar o desenvolvimento escolar dos seus colegas.

Muitos problemas relacionados ao ensino e aprendizagem no ensino fundamental residem justamente aí, na incapacidade dos professores em atender às diferentes demandas e necessidades de estudantes, tendo em vista que é fundamental capacitá-los para adquirir certas habilidades básicas. Preocupações adicionais surgem quando estes profissionais desejam impulsionar questões políticas enquanto seus alunos sequer conseguem escrever corretamente.

Ficam as perguntas: ao apresentar seu pensamento revolucionário, Freire estaria impondo uma nova forma de conhecimento ou apenas transferindo um modo de agir político? Ao conclamar o desejo por uma transformação da sociedade, o autor estaria imune à mesma transferência de conhecimento que repudia? A resposta desta pergunta talvez elucide um dos maiores casos de paralaxe cognitiva envolvendo uma abordagem teórica.

Quer saber mais sobre o assunto? Leia mais em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psipesq/v9n1/v9n1a08.pdf

Henrique Augusto Torres Simplício
Doutorando em Neurociências
Membro do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento

Referências:

de Carvalho, O. (2012). Viva Paulo Freire!. Olavo de Carvalho Website Oficial. Recuperado em Março 27, 2018, de http://www.olavodecarvalho.org/viva-paulo-freire

Freire, P. (1987). Pedagogia do oprimido. 17ª. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 3.

Freire, P. (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática docente. São Paulo: Paz e Terra, 90.

Giulliano, T. (Org.). (2017). Desconstruindo Paulo Freire. Porto Alegre: História Expressa.

Haase, V. G., Júlio-Costa, A., & Silva, J. B. L. (2015). Por que o construtivismo não funciona? Evolução, processamento de informação e aprendizagem escolar. Psicologia em Pesquisa, 9(1), 62-71.

Montesanti, B. (2016). Paulo Freire é o terceiro pensador mais citado em trabalhos pelo mundo. Nexo jornal. Recuperado em Março 27, 2018, de https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/06/04/Paulo-Freire-%C3%A9-o-terceiro-pensador-mais-citado-em-trabalhos-pelo-mundo

Moreira, A. (2013). Professor não é educador. Brasil: EDESIO.

Piazzi, P. (2008). Estimulando Inteligência. Aleph, 1 ed, São Paulo.

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