Transtorno Não Verbal de Aprendizagem

O Transtorno Não Verbal de Aprendizagem (TNVA) é caracterizado por psicólogos como um déficit nas habilidades motoras finas, nas percepções visual, espacial e tátil e no raciocínio abstrato.  É comum que ele esteja relacionado a problemas de equilíbrio, dificuldades em distinguir direita e esquerda e déficits de “memória visual de curto e longo prazo e dificuldades de entender conceitos como tempo, distancia e velocidade” (MAMEN, 2002). O transtorno é diagnosticado em uma a cada 10 pessoas com problemas de aprendizagem e afeta igualmente homens e mulheres (THOMPSON, 1996).

O TNVA afeta a matemática em geral, a capacidade de organização e a integração de informações visuais e motoras (MAMEN, 2002). Esse último fator leva a uma dificuldade na realização de movimentos mais complexos, portanto, esse grupo tende a apresentar comportamentos caracterizados como desastrados. Devido a essa característica, essas crianças podem ter uma maior dificuldade em realizar tarefas aparentemente simples, como andar de bicicleta ou amarrar um cadarço e tendem a ter uma caligrafia desorganizada (Hamilton Health Sciences, 2004). Em contrapartida, indivíduos com o transtorno não apresentam dificuldades em entender e resolver problemas verbais e apresentam bom aprendizado na leitura e escrita. Essas crianças possuem uma boa compreensão do que se ouve, um vocabulário adequado e uma boa fluência e memória verbal.

No entanto, mesmo que o TNVA, por definição, afete os processos não verbais, o transtorno acaba por deixar consequências nos processamentos da fala, pois as crianças desse grupo apresentam dificuldades em entender sarcasmo, humor e metáforas, assim como diferentes tons de voz, e acabam guiando-se, na interação social, pelos significados literais das palavras. O problema desse comportamento está relacionado ao fato de que a comunicação não depende apenas das palavras, mas sim de pistas sociais, como as anteriormente mencionadas, as quais as pessoas com o transtorno apresentam dificuldade para perceber e interpretar (MAMEN, 2002). Tal fenômeno, teoricamente, ocorre porque a dificuldade na organização da percepção visual dificulta a interpretação de dicas sociais mais sutis, como expressões faciais, que não são manifestadas por meio da linguagem literal (por exemplo, pelo uso de analogias) (PETTI et al., 2003; MAMEN, 2002). Tal característica afeta negativamente as habilidades e as relações sociais, podendo causar isolamento e solidão, deixando esse grupo mais suscetível a sintomas depressivos e outras psicopatologias como a ansiedade. Um fator agravante para a situação é se o transtorno não for diagnosticado cedo e não for seguido por um apoio familiar e psicológico adequado (THOMPSON, 1996).

O fato de que as crianças com TNVA apresentam uma facilidade verbal dificulta o diagnóstico, pois um adequado uso da linguagem tende a ser associado com a inteligência geral do individuo, o que faz com que os pais e professores subestimem os déficits apresentados pela criança (MAMEN, 2002).

Outro fator que pode dificultar o diagnóstico é que as crianças com TNVA podem apresentar bons resultados em testes acadêmicos, como de leitura e de subtração, e mesmo assim ter dificuldades em usar esse conhecimento para a realização de tarefas mais complexas. Isso é resultado da dificuldade dessas crianças em reconhecer padrões, em integrar novas informações e em generalizar, ou seja, de utilizar um conhecimento aprendido em uma determinada situação para outra situação semelhante. Devido a isso, esse grupo tende a preferir padrões e rotinas familiares (MAMEN, 2002). Essa dificuldade também afeta negativamente o desempenho social, pois essas pessoas são mais inflexíveis às mudanças e possuem mais dificuldades em se adaptar a novos ambientes e novas rotinas (Hamilton Health Sciences, 2004).

Além disso, outro fator que complica o processo diagnóstico é a similaridade dos sintomas do TNVA com aqueles relacionados à síndrome de Asperger. Mesmo ambos tendo como importante característica um déficit nas habilidades sociais, para uma pessoa com Asperger, tal aspecto vem acompanhado de diversos sintomas presentes no espectro autista, como comportamentos repetitivos e limitados, perseveração e fixação em certos assuntos. Ademais, em casos de Asperger, as pessoas, além da dificuldade, não possuem interesse nem motivação para aprender e entender comportamentos sociais. Nenhuma dessas características tende a estar presente em indivíduos com TNVA, que costumam se beneficiar de programas de treinamento das habilidades sociais (MAMEN, 2002).

Nesse ponto, é importante ressaltar que o TNVA não está presente na quinta e última edição do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e diversos profissionais da saúde ainda questionam a existência desse diagnóstico e se ele não seria melhor interpretado como uma parte do Espectro Autista. No quesito neuropsicológico, acredita-se que o TNVA esteja presente no nascimento ou logo após, e que afete o hemisfério cerebral direito, sendo o transtorno o resultado de uma redução das fibras que conectam os dois hemisférios e a deterioração da substância branca do hemisfério direito, que tem um papel fundamental na integração das informações desse hemisfério. Uma evidência para essa hipótese é que foi verificado em estudos que danos no hemisfério direito estão correlacionados a sintomas semelhantes aos encontrados em casos de TNVA, como déficits emocionais e na memória e dificuldades na percepção visual (SANDS & SCHWARTZ, 2000).

Dentre as possíveis intervenções que podem trazer benefícios para esses indivíduos, a terapia ocupacional tende a ajudar as crianças desse grupo a melhorar suas habilidades motoras finas. Ademais, a inserção do individuo dentro de um grupo social pode auxiliá-lo a entender dicas, regras sociais e comportamentos não verbais em geral (SANDS & SCHWARTZ, 2000).

No tópico de aprendizagem, as crianças se beneficiam do uso de exemplos reais; desse modo, é importante que os adultos sempre reforcem o comportamento de generalização do que se aprendeu. Além disso, não é aconselhável que um ambiente como a sala de aula seja extremamente estimulante visualmente (SANDS & SCHWARTZ, 2000).

Por fim, é muito importante lembrar de que em qualquer prognóstico é sempre benéfico a valorização dos pontos fortes do indivíduo e, no caso do TNVA, tal ponto é a linguagem verbal. Uma forma de se fazer isso é descrever estímulos visuais, principalmente as emoções, para que a criança com TNVA possa interpretar. Além disso, essas crianças se beneficiam de rotinas e da familiaridade e é benéfico sempre prepará-las que elas saibam lidar mudanças (MAMEN, 2002). É importante que os adultos relacionados à criança entendam que o isolamento ou punição não são formas adequadas de interagir com uma criança que já se esforça ao máximo para se adaptar socialmente, devido às suas dificuldades de entender sinais e regras sociais (THOMPSON, 1996).

Maria Vitória Cruz
Graduanda em Psicologia pela UFMG
Aluna de iniciação científica do LND

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

Hamilton Health Sciences. Helping your child with non-verbal learning disability. Hamilton, 2004. 12 p.

MAMEN, Maggie. Nonverbal Learning disabilities and their clinical subtypes: Assassment, Diagnosis and Management. Ottawa: Centrepointe Professional Services, Inc. 2002.

PETTI, Victoria. L. et al. Perception of nonverbal emortional cues by children with nonverbal learning disabilities. Journal of Developmental and Physical Disabilities, Nova Iorque, v. 15, n. 1, p. 23-36. 2003.

SANDS, Stephen A.; SCHWARTZ, Susan J. Child Study Center. Nova Iorque, v. 4, n. 5, p. 1-4, jun – mai. 2000.

THOMPSON, Sue. Nonverbal Learning Disorders. LD Online, Arlington, 1996. Disponível em: <http://www.ldonline.org/article/6114/>. Acesso em: 24 mai. 2016.

 

 

 

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